Uma música calma embala seus sonhos para muito além das nuvens frias. Um estranho amor em forma de anjo a carrega em seus braços e leva pra mais perto do céu. O frio, as estrelas, tudo é somente música. Uma lágrima escorre, mas ela já não pode ferir. Aquele som, aquela letra, aquela música, tudo era somente para ela. Por isso que chorava sem saber.
Agora ela anda, procurando em algum lugar uma sombra daquele menino, procurando em outras bocas aquela que nunca tocou. Desencontros, encontros e uma música suave sempre ao fundo. Notas em dó que a fazem voltar a um tempo que poderia ter sido feliz, tão feliz. Agora é tarde, outra criança longe de quem queria estar.
Ela chega em casa, a mesma casa de sempre. Não há o perfume dele nos corredores, não há sua voz enchendo o quarto, a bicicleta não desce a ladeira e nada de cartão escarlate. O vento lhe tem dó, mexe nos cabelos, mas logo enterte-se mais com as folhas no passeio. O amor não sabe esperar, aprende agora, tarde. Onde estará sua outra parte, seu brilho de prata? Ria, alto e falsamente, caso contrário, criança, poderás chorar sozinha à noite, no seu quarto.
A música agora é lamento, fúnebre canto de negra sereia. O mar esconde quem queria ver. Por quê? Se você tivesse agido certo, se você não tivesse fugido ele ainda estaria aqui. Tristesse é nome de rocha de sal que tem nela gravado o nome seu. Uma estrela cadente marca seu destino de páginas rasgadas. Ele se foi e não vai mais voltar. Não vai não.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Please Die Ana
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Dúbia
Foi nesta brumosa manhã que Clarissa decidiu, por fim, a vida.
Foi nesta brumosa manhã que Clarissa decidiu pôr fim à vida.
Subiu os dez andares pelo elevador e atirou-se aos braços dele.
Subiu os dez andares pelo elevador e atirou-se aos braços Dele.
Seriam os deuses escritores? Sim, nossas mães Moiras não teciam, escreviam. Foi algum erro na tradução dos originais. Sabes de onde vem a palavra “texto”? Pois então. A primeira entregava o papel, a segunda escrevia e a terceira os rasgava.
Criamos pessoas, escolhemos destino, semeamos atos, pesamos conseqüências, amarramos desenlaces.
Que assim o seja.
E lhes proponho, escolham um início e um fim, destes que ali propus, que lhes dou a história de Clarissa... Afinal, precisamos de motivos para cada um dos dois atos.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Dos Blogs
Dark Angel
Intrincare
Suas Respostas
Anjo Maldito
Velline
Sortilegium
Anjo Maldito
Eu andei em tantos caminhos, tantos lugares. Espalhei meus escritos, como se fossem cinzas, ao vento. Em cada esquina, cada dobra, pixado no próximo muro há uma frase, um verso, quiçá um poema. Eu risquei as avenidas, empilhei os cascalhos e fiz prosa nos paralelepípedos.
Não adianta. Eu sempre volto às nuvens.
Foram infinitas as vezes que eu reclamei dessa alcunha de Anjo Maldito. Que não me servia mais, que pertencia ao passado, que me amarrava a um só tipo de design.
Mas de repente, chegou o momento de perceber que estas penas de Anjo já estão entranhadas nas minhas carnes. Por mais que eu tentasse, por mais que corresse, por mais que eu quisesse, e eu não quis, seria impossível fugir desta sina.
Tentativas perdidas, blogs alheios, nenhum outro me pertenceu. Volto, não ao princípio, mas ao definitivo de todos os blogs que tive: Anjo Maldito.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Boring
Se eu soubesse onde me perdi talvez pudesse aventurar o caminho da volta. Talvez esta luz gélida me mostrasse o instante do erro, o segundo exato em que numa indecisão, insípida talvez, eu escolhi isto.
Se bem que, na verdade, eu não tive escolhas, não claras. Tudo foi se encaixando de tal forma, como num jogo de montar, que qualquer outra saída seria absurda. Mas chegamos em um determinado ponto em que é impossível ver o começo da estrada, sigamos, então.
Já é muito tarde, escrevo coisas bestas, não me vem a inspiração, não me vem a vida, não me vem a noite. Justo eu, que tinha tantas aspirações, agora caminho entre folhas brancas, telas brancas, flores brancas, lírios, talvez.
E tudo é tão incerto, desquitado das pencas de ilusões que eu carregava onde quer que fosse. Eu deveria estar ali, qualquer passo adiante, qualquer sonho contente, qualquer visão duradoura.
O dia frio, a água quente, um banho como missão de sentido existencial.
Meu Deus, se você acreditasse em mim estaríamos perdidos.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Abril
Abriu a porta, abriu as pernas. Era abril. Não acredito mais em abril, naquele ano, com suas promessas fartas e manhãs douradas havia me prometido um amor. Maio chegou mais frio que o normal. Tudo era vermelho demais, as paredes, o batom, o rouge, a cabeleira de puta, as unhas, as cobertas, até a luz. Lembrou-me o inferno, e passou nos meus olhos uma sombra de medo.
Ela notou, talvez por isso tenha sorrido.
- Primeira vez?
Com uma puta era.
- Aham.
Fragilidade, talvez ela gostasse. Eu queria um abraço, um beijo, o amor que abril me jurou. Maldita cigana.
Riu alto, águas rasas e cascateantes.
- Chega aqui...
Era melhor que ficar no corredor. Entrei. O espelho me mostrava triste, cansado, escuro. Um olho era desespero, o outro conformidade. Sentei.
- E então, o que vai querer?
Expliquei. Ela riu. Ria muito essa mulher, será que todas as outras ali também eram assim? Que me explicassem o segredo da alegria e eu também teria um riso de cortesã. Mas afinal, ela ria de mim ou do que eu disse? Ah, não importava, já era tudo o mesmo tom de encarnado.
Enquanto ela ria os seios de um branco leitoso eram engolidos pelo decote, e depois expostos com volúpia. Então era aquilo que eu queria? Amor?
- Bateste à porta errada, meu filho. Não posso te vender um amor de eternidade. Por este preço, veja bem, o máximo que te consigo é a felicidade por uma noite.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Quarto
São livros que já li, histórias das quais não gostei. São pelúcias e pelicas de uma infância tantas vezes infame. Caixas de deficiências que fiz questão de assumir. Retratos de vaidades coloridas, finamente triplicados. Músicas que eu não gosto e coisas que escuto escondido. Três santas inertes, mergulhadas em sua própria serenidade de não ser. Todas presas em formas de gesso e resina, espadas em punho e olhos ao céu. Farelos, papéis amarelos, bilhetes inteiros e cartões amassados. Ainda tenho aquela vela azul, porque tenho medo de queimar.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Das Gavetas
E hoje, mexendo nas coisas da gaveta, encontrei dois poemas.
Um meu, outro de Clarissa. Somos poetas de gêneros distintos, ou talvez não. Falamos da mesma coisa, amor. O meu pleno, o seu platônico.
Ah, catatonias à parte, mergulhem aqui.
És Apolo, deus sol.
Tão imponente e majestoso
Quente e brilhante
Distante...
Astro rei.
Tão acima dos reles
Tão acima das reses.
Perfeição traçada em chama ardente
Como podem, tuas mãos de céu
Tocarem as minhas?
Cuja Imperfeição disfarço
com anéis de pesada prata
Como minha boca,
Opala opaca
acostumada a só falar de amor
pode fazê-lo no teu corpo?
Sou tão humano, meu deus, tão humano.
Talvez sejas para sempre
Minha escultura de mármore
Alvo
de minha devoção e desejo
Volúveis Volúpias.
Mal resolvidas à meia-noite
Meu deus, sou pura carne.
Meu contato te contagiaria
De tantas bestialidades humanas...
És traço perfeito
Sou coisa.
És deus sem defeito
Sou coisa.
Por isso mantenho distância.
Medo de quebrar-te
Medo de entregar-me
Medo de tornar-te
Coisa também.
Vôo de Farfalla
Farfalla inscrita ao corpo
Colorida, suave inébil.
Voa, por debaixo da pele
Sobe ao pescoço,
Sigo-a com os lábios.
Desce aos seios,
Sigo-a com a boca.
Pousa às coxas,
Sugo-a com a língua.
Asas de tons irreais
Sortilégios pousados à meia lua.
Flores que enfeitam tua nudez
Farfalla nunca te põe nua.
Ainda que todo resto sejas carne
Em partes és asas de farfalla
Valsa de farfalhares
És tela, minha pintura.
És minha e nua
há música, sinfonia de arrepios.
Quando toco tua farfalla
E já ela se perde ao longe
Voa, brinca
Pousa, voa.
Por corpo todo
Em minha mente.
Impossível
Não te amar
Farfalhosamente.

