quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Pão

Estamos em um limiar perdido entre o dia e a noite. Os últimos pássaros cantam distantes, em uma ânsia de medo e sono. Da minha janela pode-se ver uma rosa vermelha. Que de tão pequena, murcha e deselegante, conserva o viço fresco do que é imperfeito.

E neste princípio de anoitecer, cães hidrofóbicos gritam meu nome pelas ruas, eu bem o sei. Levem, sarnentos, este pedaço de pão. Não preciso dele, não passo fome. Roam o miolo raivosos e babentos, se ponham a latir bem alto e mostrar os dentes. Há animalização em tudo que deveria ser humano e bom.

Prefiro me conservar em uma virtude necessária, como os santos de rostos gésseos e serenos lá no altar. Acima da cabeça dos homens, sem pecados, sem carnes, sem pão.

Declino-me a um pecado tão soberbo que mereço a posição de destaque e esta auréola iluminada. Gosto de me afundar pensando assim, que sou melhor, tão melhor do que os cães que pela rua ladram.

Como bem disse a música “Somos quem podemos ser”.

Os cães rosnam e viram e latem até no fim achar uma cadela renga que lhes abra as pernas e faça mal-feito seu papel de fêmea. Que abaixe a cabeça todo aquele que precisa de um osso.

Sou muito mais os gatos que de fome não morrem porque caçam. Mantém a pose, mesmo magros, imundos e inundados. Aquele olhar soberano e indiferente que lembra, não os santos míseros mortais, mas os deuses.

Sem dúvida, nesta luta de cães e gatos, fico com a elegância e o porte dos felinos. Levem o pão, porque como whiscas.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Incompleto

Começo milhões de coisas, mas nem todas elas termino. Será que o vazio é tão grande que preciso preencher com bobagens? Ou com coisas que me parecem paixões, me viram a cabeça e passam tão rápido quanto chuva de verão. Escrever, fotografia, web design... Eu pareço querer abraçar o mundo, e, de repente, deixo tudo cair de uma vez só. Minhas paixões se anulam, não se entrelaçam, como deveriam.

É noite, mas há ainda um sentimento de que o dia não poderia acabar. Há tanto o que ser feito... O quê, meu Deus, o quê? Acho que estamos cansados demais até para

sábado, 26 de janeiro de 2008

Silêncio

- Olá.

- Ah, oi. Você?!

- É...

- Quanto tempo... Por onde andaste?

- Viajando... A negócios. Precisei tratar de alguns assuntos fora do reino, com um mercador de escravos.

- Hum... Entendo.

Ela poderia ter dito que sentia sua falta, ter-lhe abraçado, deixado toda sua angústia virar água e libertar-se em lágrimas. Mas Clarissa não era dada a essas coisas. Não podia. Não com ele.

­ E você, o que me contas de novidades?

Ele poria ter dito que só voltou por causa dela, que todas suas voltas sempre foram por ela. Não, não podia. Não agora.

Mantinham-se na beira da estrada e o silêncio dominou a paisagem, caiu como algo pesado e dificultou tudo mais. Os olhos se encontraram e disseram o que as bocas trancavam. Três séculos se passaram e nada aconteceu naquele pôr-do-sol.

- Linda...

- Como?

- Lindas as flores. Isso, as flores ali.

- Ah... São mesmo.

Eram pequenas e brancas, com forma de estrela. Tingiam-se de laranja com as matizes do poente. Não era das flores que ele queria falar. Não era sobre as flores que ela queria ouvir.

Foram sempre assim, tanto para dizer... e falavam tão pouco, sobre eles.

Amavam-se? Talvez nunca souberam, porque fenesceram assim como as flores mais delicadas e os castelos de pedra mais bruta.

Dizem que nas noites sem lua ainda voltam, eternamente. Encontram-se e novamente não dizem nada. Talvez tenham medo do amor ser platônico. Mentira, sabem que não é. Talvez tenham medo do que os outros possam dizer. Mentira, ninguém mais os vê.

Talvez tenham se condenado à espera muda de um amor que poderia ter transformado suas vidas, alegrado seus dias e um dia, salvado suas almas.

Ao inferno então.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ponto

Vem, vamos embora daqui. Este não é um lugar para pessoas como você e eu. Há um céu que sempre é azul e no centro dele aquela bola de fogo que mata aos poucos pessoas e animais. O calor faz com que o ferro se retorça nas cercas e as galinhas já botem os ovos cozidos. Nada por aqui é muito normal, nem muito comum. Das camas nas calçadas até os trens coloridos que passeiam pelo asfalto. Por aqui, já notaste?, há pessoas que não sorriem. Mas tenha uma certeza, se algum dia amanheceres morto procure entre as que mais lhe eram afáveis o assassino. Não conhecem palavras como verdade, sinceridade, lealdade, me juraram eles. Há aqueles que sempre erram e, pasme, pessoas que são per-fei-tas. Não, não, não. Para mim basta. Carregue tuas coisas, faça tua mala, a minha está pronta. Não leve nada mais que permita uma fuga na madrugada. Vem, aperta o passo, porque já vamos tarde demais.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Só hoje...

Agrada-me um lugar ao palco, ser protagonista dos teus sonhos, diamante solitário em teu dedo. Mas de repente sempre estamos contracenando com uma verdadeira trupe... Da qual já nem me sinto mais parte. Viro platéia então. Não gosto de dividir, egoísmo, a melhor das manhas de quem cresce só.
Sou teu inteiro, te tenho em partes.
Saudade de quando o negro dos teus olhos viam apenas o mel dos meus. Hoje há tanto para olharem que o mel aos poucos açucara e já não mais o querem.
Saudade das tardes em que me perdia desenhando os traços teus. Sem que eu precisasse ser engraçado com as visitas e sorrir de volta. Amo-os também, aqueles que vêm. Mas em menor medida e menor necessidade. De ti preciso como de minha vida. Essencial, para um menino que hoje se sente só. Um solitário, que nada tem de diamante.
É quente, e eu odeio calor. Fiquei trancado para fora de casa, mas disso você nem sabe. Tive um dia péssimo e cheio de um trabalho que odeio. Queria te abraçar no fim da tarde e tudo ficaria bem então. Deitados, nus em sua cama, enquanto a claridade diminuía pela janela. Talvez adormeceríamos juntos, sentindo a noite... Depois acordaríamos, também juntos, com novas ânsias de amar, de sentir nossos corpos juntos...
Mas eles vêm, cada vez vêm mais.
Desculpa escrever, mas é minha outra maneira de chorar.

Só Hoje
(Jota Quest)

Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal...
Olhar teus olhos de promessas fáceis
E te beijar a boca de um jeito que te faça rir
(que te faça rir)

Hoje eu preciso te abraçar...
Sentir teu cheiro de roupa limpa...
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz!

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua!
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria...
Em estar vivo.

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar...
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia...
Que eu faço tudo errado sempre, sempre.

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Do céu

A folha branca me deprime. Faz lembrar, talvez, de um tempo em que ainda havia o que ser dito. E é por isso que eu digo, a dor faz o poeta. Eu queria poder voltar e negar um pouco do que aconteceu, trazer de volta alguns quadros que deixaram manchas na parede, depois que sumiram. Eu entro em becos buscando algo que eu perdi. Todos buscam, é verdade, mas ao menos os outros sabem o quê. A natureza humana me é cada vez mais distante, porque em minhas fases viro a noite e desperto fera. Desejando que tudo mude, que tudo seque e morra de uma vez. Eu decifrei o segredo da esfinge, mas não a queria morta dentro de mim. Há uma música que é triste e toca lá fora. Na certa ela encontrou o velho piano no meio da floresta. Havia lá perto uma catedral que eu nunca mais encontrei depois de demolida minha infância. Me sinto como se tivesse apanhado e como se tivesse batido. Num auto-espancamento que deixa marcas de flores mortas. Não queria mais me sentir assim. Alguém abra a porta, por favor, eu quero sair...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal

É natal, é natal. E Clarrisa me ganhou uma boneca de louça. Linda, é bem verdade, mas ela queria um tarot. Havia escrito isso, não lembra aonde, mas havia. Reclama com a mãe, mas de que adianta? Ela é muito nova para ter uma coisas dessas. E ademais, quem lhe ensinará a usar? As alminhas mãe, as alminhas. Não há conversa. Vista-se para a missa de uma vez, ou vamos nos atrasar. É natal, e você sabe como seu pai fica nestas épocas.
Sete anos. Ela já tem idade, a mesma idade com a qual eu comecei. Mas não foi um presente de natal, meu primeiro baralho. Veio de longe, bem além. E também foram Elas que me ensinaram a ler aquelas cartas, que quem mesmo escreve? Ah, Clarissa, pequena, tudo ao seu tempo.
A carta que lhe dou hoje é a primeira: O Louco.
Assim seja.