sexta-feira, 3 de maio de 2013

Qual o sentimento mais doído?


O que se sente sozinho. Seja ele qual for.

Um amor não correspondido, uma amizade unilateral, um rancor corroendo o peito. O sentimento que dói mais é sempre aquele que não encontramos com quem compartilhar. Em mim, hoje, dói muito a esperança. Meus olhos estão quase verdes de acreditar. Eu só queria que acreditassem também. Eu queria que fossem ingênuos como eu. Que dissessem que os bons não morrem no fim do livro e que os maus recebem sempre algum tipo castigo. Não há quem o diga. Experimento meus olhos verdes e luminosos, miro os olhares de quem está à minha volta. Eles deveriam ser claros, azuis e verdes, mas eu só os vejo negros... Estou sozinho. Estou sozinho e não sei o que fazer da minha esperança. Então ela me dói.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Da tabuinha sobre seu colo


Eu queria poder entender tão pouco a ponto de pegar um papel de pão, o estojo com lápis de cor, e fazer um desenho para que você ficasse bom. Eu queria escrever em letra torta e colorida que sinto sua falta (que o amo) e que estou com saudades.

Eu mandaria para você o papel dobrado e saberia que, ao vê-lo, você sorriria e pensaria em mim. Eu queria depois ligar a outra pessoa perguntando se você tinha visto e se tinha melhorado. E eu queria ouvir, então, que sim, que você havia sorrido, levantado e dito que voltaria já pra casa, que já estava bem melhor e era hora de me ver de novo.

Mas...

Não há mais espaço para guardar papel de pão.

Os lápis de cor estão quebrando por nada, de velhos que são.

Minha letra não consegue ser torta outra vez.

Minha esperança encolheu toda a ponto de caber num bolso de trás.

Mesmo assim, mesmo sem desenho, mesmo sem cor, mesmo sem pão ou esperança, por favor, fique bom. Por favor, só isso, vô, fique bom.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Sete anos

Depois de sete anos você cansa, briga e resmunga. Você perturba e se perturba com as mais mínimas manias. Sim, depois de sete anos você discute, discorda e tem ganas de sumir...

Mas aí você percebe que, depois de sete anos, você incorporou o cheiro dela ao seu. Você entende cada olhar, você antecipa vontades, você faz o impossível só para vê-la sorrir. Depois de sete anos você sempre sabe para quem ligar no pior momento. Você ainda a espera chegar na janela. Você experimenta, então, uma intimidade que jamais pensou existir: você conhece o toque, o gosto, as lembranças, os sonhos...

Depois de sete anos você chora na frente dela e confessa, uma a uma, suas fraquezas. Você recebe o carinho certo no momento certo, você tece planos, conquista objetivos. Você ouve "nãos" e aprende a aceitá-los. Aliás, você aprende a cada instante como ser melhor, porque começa a cultivar em si todas as características que admira nela.

É tanta história. São tantos os momentos de entrega. É tanta a confiança e tanto brilho nos olhos que você não consegue, depois de sete anos, imaginar uma vida sem ela.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um brinde!


Amanhã, a essas horas, não haverá champanhe gelado, pronto para espocar. Não haverá comemoração, drinques e amigos em um bar. Não haverá sequer um café e alguém para conversar. Não haverá abraços e felicitações e promessas falsas, fáceis de se acreditar. Não haverá mimos, agrados, lembranças pra se guardar.

Amanhã, quando mais tarde eu abrir a porta de casa, sei que as luzes não estarão apagadas. Sei que não haverá quem grite "Surpresa!", quem tenha organizado um jantar. Não sei se haverá quem pergunte como foi.

No outro dia, não haverá comemoração, fogos, diversão. Não haverá faixa, diploma ou retrato em jornal. Talvez (não sei) alguém lembre e pergunte, entre conversas amenas dos colegas nas vilas, entre uma aula de matemática e outra de geografia. E eu vou, então, sorrir e dizer (mentindo ou não) que foi bom. E a seguir falaremos mais dos problemas de algum sétimo ano.

Esse texto não é choro, nem lamento, nem grito irado. É constatação. Constatação de que não haverá porque não sou desses para quem há. Para quem há festas, bebidas e brindes. Não sou desses para quem há amigos e abraços e faixas e fotos.

Sou dos que, hoje à tarde, bem sozinhos, bebem uma vodka com morangos (que gelaram em refrigerador quebrado) e brindam ao nada. Brindam à toda lama e toda bosta que viram essa semana, brindam às escolhas erradas, aos caminhos sem volta, à falta de revolta e à ausência até de dor. Sou dos que comemoram a nulidade que se tornaram, bem sozinhos, talvez quase mestres, com a única certeza de que, até agora, não há motivo para comemorar. 

Tim tim.

A isso então.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Fardos


“Um besouro-rinoceronte consegue suportar nas suas costas um volume equivalente a oitocentas e cinquenta vezes o seu peso.”

“O homem mais forte do mundo consegue carregar quase três vezes o seu próprio peso.”

A testa franzida. O maxilar travado. Os olhos quase fechados. As veias pulsando em um ritmo perigoso. Os músculos todos estirados. A sensação de que não se pode mais aguentar. Ao mesmo tempo, a certeza de que não é do seu feitio desistir. Mais um passo. Só mais um passo. Eu posso. Eu consigo. Eu não vou me entregar agora... 

E então você desaba.

Você desaba como um Atlas que não aguenta mais o peso do firmamento. Você derruba toda sua carga e, no primeiro instante, tudo que quer é morrer.

Você se entregou. Você desistiu. Você, que nunca soube admitir fraquezas...

Então você permanece no chão, longamente. Você fecha os olhos e implora que tudo termine. Você quer fugir. Você quer morrer.

Algum tempo passa e nada se move no mundo.

Você abre os olhos de novo. Olha para toda aquela carga que você trazia e percebe que grande parte dela não era sua. Não era. Simplesmente você foi tomando dores alheias, você foi recolhendo as tristezas, frustrações e amarguras dos outros. Você tomou para si responsabilidades e lutas que jamais deveriam ser suas. Aquilo que fazia você ranger os dentes e franzir a testa era, enfim, o sobrepeso do que não era seu.

Você percebe que pode continuar. Pode, se só recolher do chão, entre cacos, o que é seu. As suas expectativas e frustrações, os seus sentimentos e pensamentos, as suas batalhas, derrotas e troféus. Você o faz. Pisando entre os despojos das cargas alheias, você recolhe as suas e as levanta. São leves. Com elas você pode. Assim você consegue continuar. Consegue com sorriso no rosto e leveza nos olhos. Você só precisa se lembrar, passo por passo, de que compartilhar a carga alheia vai tornar a sua insuportável; de que você deve continuar só com o que é seu e de deixar o que é dos outros continue com eles. Cada um com o seu peso. Cada um com suas dores. Agora você vai. Agora você já tem para onde ir.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Duração

Depois do último ronco do chimarrão, ainda olhando para a geladeira nova que já pifara, Seu Alaor proclama: "Antigamente sim as coisas eram feitas para durar. As batedeiras, as geladeiras, os liquidificadores, as televisões... Até o amor. Até o amor, antigamente, era feito para durar."

sexta-feira, 8 de março de 2013

Carta aberta às mulheres


O que de pior o machismo nos trouxe foi um feminismo.

Não aquele feminismo que luta por (legítimos!) direitos iguais, mas um outro, um feminismo de cabresto, que não almeja chegar ao lado dos homens, mas acima deles. Esse tipo de movimento faz com que algumas mulheres queiram se aproximar do que de mais bestial o machismo impunha: o conceito de um sexo dominante e outro dominado.

Será sempre assim? Sempre a luta que começa por igualdade precisará transformar-se em uma luta pela superioridade? Como ficam as relações em uma eterna “prova” de poderes e luta por territórios?

Se o seu marido deixa as roupas para você dobrar, pode não significar que ele pense ser esse um serviço pouco digno a um homem. Talvez ele o faça por ter duas mãos esquerdas e nenhuma habilidade com elas.

Se ele deixar a louça pra você lavar – depois dele ter cozinhado, limpado a casa e mudado os filhos – pode não querer dizer que ele seja machista. Talvez ele esteja só cansado.

Se ele disser: “Está tarde, vamos dormir”, ele pode não estar querendo dominar sua vida e provar que, como pensava a geração dos seus pais, ele manda em você. Ele pode só estar cansado e querer que você deite com ele.

Por favor, mulheres, menos preocupação e mais parceria. Menos necessidade de provar alguma coisa (para quem???) e mais compreensão, mais troca, mais abertura.

Você pode sim limpar a casa e ele trocar pneu. Você passar a roupa e ele pendurar os quadros. Você fazer as compras e ele cuidar das contas. Ou você abrir o vidro de conserva (já que faz boxe) e ele pregar um botão (já que foi criado ajudando o pai alfaiate). Nem tudo precisa ser uma guerra pela quebra de estereótipos. Às vezes é só uma questão de habilidade, como quando você sentava ao lado da colega mais esperta em matemática na hora da prova em dupla.

Relação é parceria, não competição. É chegar junto e não é repetir sempre “você não manda em mim!”. Muitos de nós, homens, reconhecemos o mérito de vocês e não queremos ser superiores. Tampouco precisamos que vocês provem a sua superioridade (já a conhecemos!).

Quem precisa provar o tempo todo que é dona de si, não o é: é ainda refém das velhas ideias machistas que já não deram certo. Esqueça um pouco o machismo. Esqueça um pouco o feminismo. Lute só contra quem ameaça você, os seus direitos, o seu bem estar. Lute como lutaria qualquer pessoa que se sentisse aviltada, se você se sentir assim (ou caso se perturbe com o sofrimento alheio). Mas se esse não for o caso, não perca tempo tentando convencer o outro do que ele já sabe. Se você é fantástica, só continue assim. Sem brigas, sem disputas, por favor, sem precisar provar isso o tempo todo. O bom senso agradece. E o amor também.