terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O ciclo das águas paradas

"Cold, cold water surrounds me now...”

Foram tantas gotas d’água que o balde já esvaziou de tanto transbordar. Um pouquinho a cada dia, a água começou a molhar meus pés. Quando cobriu minhas mãos, eu até tentei nadar, mas sou fraco e entreguei-me às ondas de marasmo.
Agora que a água cobre a cabeça e a gota eterna me racha as asas, é hora de sair daqui. É hora de deixar o aquário e nadar no lago, no rio, no mar...
Tudo que não posso é me afogar.
Não mais.
Não de novo.
Não aqui.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Seco Eco

"De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa"

Eu sempre a confesso, embora hoje minha tristeza me envergonhe, mais do que me orgulhe. Porque minha tristeza é vazia e tem o peso exato de tudo aquilo que não carrego.
Minha tristeza chora dúvidas e soluça incertezas, como posso eu consolá-la se os vazios são tantos dentro de mim?
Às vezes o vazio é tudo e somente o eco é a resposta, uma resposta diferente da que a gente procura. Eu tento falar com Deus, mas acho que esqueci o número. Acho que não posso ser como todo mundo que pede as coisas e tem esperança de ser atendido.
Minha esperança é fraca, mirrada, quase vã e isso me choca.
Trago estes olhos assim, arregalados, em um deserto de noites torrenciais, eu poderia beber toda esta água e ainda estaria seco por dentro. Minha secura me incomoda, me deixa sem sono, amplia a imensidão do vazio que é minha tristeza.
O que me prende é o pouco que andamos e o nada que esperamos.
O que eu choro é o que nunca será.
E se não tenho lágrimas, perdão, porque toda minha tristeza é só ausência.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Saudade, saudade...

"E que o passado não passe assim... sem você"

Sou do tempo em que blog era coisa de menina, não de ministro.
Que saudade da época onde blog era aquela coisa rosa, cheia de gifs coloridas e piscantes, trazendo frases feitas de efeito e bem pouco conteúdo.
Sinto saudade porque lá eu era avistado.
Lá eu fazia a diferença, com meu blog soturno e quase poético.
Agora blog é coisa de ator, cantor, locutor, diretor, catador, político e prostituta.
Sem contar, meus caros, nos falsos literatos e aspirantes a escritores.
No lugar das gifs vieram os anúncios, blogs viraram fonte de renda, veículo de divulgação, meio de comunicação e têm tantos outros atributos que divergem totalmente da fonte principal.
Sou antigo, antiquado, ultrapassado, lá do tempo em que se faziam as coisas por amor e se colocava acento na palavra idéia. Sou da época em que blog era diário e as meninas mendigavam um comentário.
Tantos blogs de famosos, todos tão bem visitados, todos comentando na esperança de serem vistos por seus ídolos. Pensem só, o ator da Globo hoje leu um comentário meu. Leu meu nome, sabe de minha existência!!! Estou cansado de vocês.
Queria os blogs ainda anônimos, cheios de gente estranha e desconhecida que se uniam em teias de conforto.
Agora estou sozinho...



Ah, mas esqueçam tudo isso que o quero não conta, é a dita da evolução.
E só para avisar, esse foi um canto em prosa do que eu falei ontem em verso (no post abaixo).
Afinal, quem vocês acham que é B.L.G?
Basta que se coloque uma vogal.

Pode parecer estranho, mas cada vez que leio aqueles versos, os ouço cantados.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Versos tristes a B.L.G.

É triste...

Hoje todo mundo te tem,
antes não eras de mais ninguém,
só meu.

É triste te ver em outras bocas,
no passar de outros dedos,
no brindar de outros olhos
ou no cair de suspiros não meus.

Ainda antes eu poderia ser especial,
por brincar com teu mel,
me escorrer de prazer.

Agora, já todos te olham,
te brincam e exploram,
quase não és meu.

Viraste michê,
vagabundo,
danado e imundo,
cobrando cachê.

E hoje já nem me visitas,
evitas minhas fitas
à máquina de escrever.

E hoje tua mão é impura,
já não imploro candura,
estou afim de viver.

Por mim eu sumia no mundo,
de pena e tinteiro,
pluma de travesseiro,
pra nunca mais te ver.

Mas hoje te vejo contente
desfilando outra gente,
minha falta nem sente,
me mira de lado.

Quando me olhas
é assim estressado,
já quase cansado,
quer me esquecer.

Esqueça rápido então
aquele meu coração
que te ama,
uma alma que é chama
e queima por te querer.


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Traduza-me, ou te devoro

"Como é que eu vou poder cantar se a minha dor está envergonhada, está fora de moda, está parada pra pensar.
Como é que eu vou contar as minhas tristezas se elas estão tão enroladas que nem eu mesma sei.
O que foi que restou da minha vida?
Onde estão as minhas mágoas?
Onde é que eu estou?
Será que eu vou ter que cantar a tristeza dos outros, tendo tantas que são minhas?"



segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Cigarra e a Formiga

“Menino sonha com coisas que a gente cresce e não vê jamais”

Voltamos.
Cabeças baixas, mas sem o cuidado de não pisar nos fios da calçada.
Voltamos.
E voltamos sem caminhar por cima dos muros, sem pular nos gizes da amarelinha, sem juntar a revistinha no chão.
Viemos esfregando o sono nos olhos, carregando nos ombros o peso da noite e sem reparar nas placas dos carros.
66 sorte!
Cruzamos primeiro o portal, depois a porta e mais duas até chegar à mesa.
Chegamos.
Chegamos adultos e enfáticos, viemos mudos e sorumbáticos, mas voltamos.
Voltamos apesar de saber que aqui somos mais infelizes.
Viemos, mas ainda olhamos cuidadosos para a porta que sai.
Chegamos, até na mesa, onde na terceira gaveta nascem todas as amarguras.
Ah, as amarguras, descascam dos ovos ainda brancas e verminhas, entre os papéis e os lixos. Amargurinhas rastejantes que se esvaem pelo buraco que deixou a fechadura e sobem nadando em rios de pó no ar.
Elas vêm, todas elas, penetram na pele e nos arrancam primeiro o sorriso, depois a vida. Lentamente, bem lentamente.
Foi para cá que voltamos?
Foi para isso que viemos?
Foi assim que chegamos?
É... Acho que foi.






PS: Reforma Ortográfica é o cacete!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

“É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais”

Peguei do chuveiro algumas lágrimas emprestadas e aí chorei de fora para dentro. Porque é o que você faz quando não consegue chorar.
E o que você faz quando começa a se perguntar se sua vida não estaria passando em vão?
Você tem tanto medo dessa resposta quanto eu?
E quando você começa a pensar sobre onde chegou até agora, não sente medo de enlouquecer?
Eu achei que já estaríamos além.
Eu acreditei em uma porção de sonhos bobos e ilusões infantis. Você também?
É, eu sei.
Eu acreditei que poderia fazer o que quisesse, ser quem eu escolhesse, lutar contra tudo, contra todos.
Mas de repente você percebeu, né?
Como lutar com ele, se seu maior inimigo só pode olhar em seus olhos quando você está em frente ao espelho.
Você pode ser diferente, não pode?
Quer dizer, você ainda pode ser quem escolher, não é?
Porque se você responder que não, eu não vou saber para onde ir.
Tudo que eu queria era poder acreditar que de repente, talvez numa manhã de sol, quem sabe numa noite sem lua, a felicidade ia chegar e perguntar se poderia ficar, aqui, comigo.
Se você ainda acreditasse eu poderia fechar os olhos e rezar baixinho, pedindo para que uma coisa, uma só coisa, desse certo na nossa vida.
Se você dissesse que era só agüentar um pouquinho, um pouquinho mais para ter o happy end, eu acreditaria.
Talvez em outro trabalho, em outra casa, em outra cidade, em outro dia...
Talvez a gente pudesse ser feliz, só um pouquinho que é para não sair da normalidade.

— Empresta-me mais algumas lágrimas, chuveiro, eu sou só um garotinho com medo de ter pintado o céu com o lápis de cor errado.




“• UMA VERDADEZINHA •
Eu não carrego gadanha nem foice.
só uso um manto preto com capuz quando faz frio.
E não tenho aquelas feições de caveira que vocês
parecem gostar de me atribuir a distância.
Quer saber a minha verdadeira aparência?
Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo.”