terça-feira, 6 de agosto de 2013

Situação de calamidade

No celular, um aplicativo passou a manhã me avisando sobre o risco de temporais.
Lá fora, o céu azul passou a manhã me dizendo que o aplicativo mentia.
Agora, eu sei quem estava mesmo certo.

Hoje o dia nasceu para desabar. Dia daqueles em que os trovões arrebentam, o vento devasta e o granizo destrói. O aplicativo estava certo. Ele só esqueceu de mencionar que o temporal seria por dentro. Por dentro.

De repente eu ali, criança de novo, enquanto me olhavam e estudavam minha reação. Enquanto eu buscava na tela da televisão, no prato de comida, na cortina da cozinha, a reação certa. A reação que não está em nenhum dos livros que eu li. A reação que não está nos filmes que eu vejo. A reação que, talvez, só esteja nos dramas das novelas mexicanas. Novelas que eu sempre me recusei a ver. Talvez eu devesse ter visto. É nisso que eu consigo pensar. Se eu tivesse visto, poderia substituir o choque e o pasmo por algo mais descente.

Consternação? Revolta? Compaixão? Curiosidade?

Qual é a emoção de se vestir pra isso? Penso que começar a chorar seria o caminho. As lágrimas estavam ali mesmo. Eu só as controlava pela profundidade da respiração. Sinto que nas novelas  jamais vistas, alguém gritaria entre lágrimas. Alguém Perguntaria um “Por quê?” sofrido, pungente. Alguém se atiraria no chão, rasgaria as cortinas, abriria a porta e sumiria no mundo, em busca.

Eu ouvi e ponderei. Eu esperei saber o que fazer. Eu quis abraçar alguém, mas estamos tão longe disso. Tão longe. Eu quis confortar, quis fazer um afago, quis dizer que perdoava, mas como perdoar o que não é crime? O que mal se compreende? Eu não posso perdoar o que não posso julgar. E eles esperavam perdão.

Eu esperava que eles fossem logo embora. Eu não queria condená-los, mas também não podia absolvê-los. E eles queriam qualquer coisa minha. Qualquer reação. Qualquer lágrima. Logo eu, que tenho tanto medo das lágrimas, tanto medo de não poder controlá-las. Eu não lhes dei nem uma lágrima. Eu não lhes dei nem um sorriso. Eu não lhes dei um grito sequer. Eu não deixei sair do meu peito o temporal anunciado.

Mudo, eu vi ventos devastando anos, chuvas afogando lembranças, granizo destelhando mentiras. Mudo. Eu deixei os raios iluminarem os cantos, os trovões balançarem as paredes e os meus muitos eus gritarem por socorro, com as bocas enchendo d’água.

Mudo, descubro agora. É assim que se fica quando a pergunta que mais fazemos nos é respondida.

Mudo, porque não sei o que fazer da resposta. O que fazer da pergunta. O que fazer de mim mesmo. Mudo. Mudo porque o temporal não deixa espaço para a fala, enchendo tudo de escombros e corpos na lama. Mudo porque não vejo qual é a alternativa agora. Prosseguir? Reconstruir? Deixar? Ignorar? Mudo. 

Finalmente um modelo de reação: a mudez.

É assim que aparecem os homens depois de perderem tudo nos temporais. Mudos.

3 comentários:

  1. A natureza sempre nos lembra que pode levar o que quiser.

    Mas se sobra o homem, no que este se agarrou?

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  2. Traduzi a tua mudez e até em mim ela quis pegar. :S
    To aqui pra ti. Sempre.

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  3. Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
    reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
    Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    decerto que virei aqui mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
    siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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