sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Caríssimo

Arrumando hoje as coisas das gavetas, encontrei um papel com o nome teu. Vinicius Linné. O nome limpo, um papel rasgado. Lembrei-me de ti. De todos os meus personagens – e foram muitos – tu és o único que não matei. A tua história é a única, aliás, à qual nem fim dei.

Que te esqueci é bem verdade, mas haverás de me perdoar. Eu me afastei porque precisava, já começava a te pintar com tintas tristes. Eu te fazia chorar à toa e machucar-te assim me magoava. Dei-nos um tempo.

Que foi de tua vida enquanto não te escrevi? Viveste? Não? Eu não sei. Não sei o que fazem meus personagens longe de minhas tintas e minhas máquinas. Se continuaste triste por esses tempos, perdão. Hoje voltou-me toda uma vontade de te retomar, de te fazer sentir, vibrar, viver. Ou te fazer dançar e cair, comigo no fim.

Há dias – e noites principalmente – em que penso em tirar-te dos meus papéis, do molde negro das minhas letras. Assim, como se eu acaso fosse uma versão moderna de Dr. Victor Frankenstein. Com a diferença de que você não é monstro porque eu te fiz anjo. Agora queria fazer-te carne, músculos e sangue. Queria fazer-te homem. Qualquer dia queria ver teus olhos tristes feito pingos de mel, os teus cabelos escuros feito anoitecer, tua barba de tirar a inocência do rosto.

Queria ver isso em qualquer canto da rua. Mas não há magia que traria à vida o que eu inventei. O que só por isso existe. E só dentro de mim. Assim como não posso fazer me brotarem os sentimentos do peito. Como não posso traçar o amor, o ódio. A tristeza mesmo que me é tão íntima, eu não posso moldar em argila crua e depois soprar-lhe vida. Mesmo a ti que teci com dedos de panos tão delicados eu não posso fazer viver. Eu nem pude te impedir de sofrer, quando era isso que desejavas tão ardentemente.

Ah, Vinícius. Somos no fundo tão iguais. E acho que é em minha carne que te fazes carne. É do meu peito que te faço o teu pulsar. Não sei, menino, quando foi que te inventei. Imagino que era outono. Imagino que entardecia. Imagino que as nuvens armavam uma tempestade azul. Imagino que naquele dia eu amava e por isso imaginava você.

Queria te ouvir. Queria te tocar. Queria te fazer escrever. Será que algum dia me perdoarias a tua criação? Será que algum dia faria sentido eu te criar feito máscara minha. Será que eu te convenceria de que tu não existes? Não sei de mais nada. Sei que escrevi porque a tarde existia. Porque a solidão existia e porque existia papel e caneta nas minhas mãos. Sei que escrevi só porque precisava que tu vivesses também. Para não ser tão sozinha. Para não ser esquecida. Para purgar e para não morrer.


E agora que tudo é assim, tão fatal, tão ficcional e tão real aqui dentro, queria te dizer que um dia ainda te escrevo uma história linda. A primeira de toda minha vida. Prometo.

Com amor,
Clarissa

4 comentários:

  1. A inventada reinvenção de nós mesmos. Hausto vira sol. Casa vira rua. Rua vira deserto e vamos nos repetindo, repetindo... repetindo.

    (um dia me explica esse poder de me emocionar tanto?).
    S

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  2. Sempre tive curiosidade de saber quem é Ágatha ou mesmo Clarissa.
    Seriam personagens?
    *
    *
    *
    "Por isso te escrevo: pra cuidar de mim,pra cuidar de ti."
    (...)
    Te escrevo enfim,porque nem eu nem você somos descartáveis.
    E amanhã tem sol."
    C.F.A.
    Beijos.

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  3. Ah, Lilian, isso é segredo ainda.
    Por enquanto deixemos Ághata e Clarissa descansarem.

    No fundo o personagem [delas?] sou eu.

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