segunda-feira, 18 de julho de 2011

Do vazio

Pedem-me para explicar o vazio. Mas isso é que eu não posso. O vazio é falta, falta, inclusive, de palavras. No vazio não se existe, como é possível, então, se explicar. O vazio é só isso, a falta do sentido, a ausência da definição, o espaço branco do papel, no qual não se consegue escrever - nem pintar.

O vazio é o peito chiando tonto, a vista perdida no horizonte torto, a boca ligeiramente curvada, a vontade completamente evanescida... O vazio é a incompreensão sem vontade de compreender. É a lentidão da vida implorando a morte. O vazio é o chamado silencioso pelas pílulas de se fazer sentido. E meu vazio, ainda mais grave, é o que se recusa aos prozacs.

Meus olhos parecem vazados no espelho, de tão vazios. Dois imensos buracos castanhos, sem vida, mas também sem mortos enterrados neles. Dois olhos tão ocos quanto o dia. Poços sem água, potes sem mel. E para que água se sede também não há? Para que mel se não tenho lábios a que adoçar.

Vazio, entendem? Coisa que eu não explico. Desperdício do espaço que não se ocupa. Peso do que não se carrega. Transbordamento do que não nos preenche. Vazio, enfim, entendem? Assim:

Vazio que parece vazio,

mas que se preenche pela dor

de se ser.

domingo, 17 de julho de 2011

Aniversário

Ela planejou a festa de Ághata com a mesma delicadeza com que planejaria uma vingança frígida. Comprou as velas cor-de-rosa, os pratinhos e copinhos de papel enfeitado, os balões coloridinhos e salpicados de corações, os chapeuzinhos decorados com motivos infantis... Providenciou, enfim, tudo. Tudo para que a velha se sentisse o mais ridícula possível.

Sabia da austeridade britânica e dos modos contidos de Ághata, de maneira que cada detalhe foi pensado para constrangê-la e diminuí-la. Ela tratou de convidar, pessoalmente, cada desafeto da velha, cada parente pelo qual Ághata nutria qualquer pingo de nojo.

Estando tudo assim, tão premeditado, era impossível ser outro o resultado. No meio da festa os olhos dela cruzaram com os de jasmim murcha de Ághata. Então toda dor se fez. Ali estava a velha, de boca amarga, de pupilas úmidas, desfeita, humilhada, de chapeuzinho rosa sobre a brancura dos cabelos loiros. Ela fizera de tudo para, em mais este dia, machucar a velha. E quem se doía inteira agora era ela. Doía pelo que havia se tornado, pela amargura que havia herdado, por ter virado, ela própria, Ághata.

sábado, 16 de julho de 2011

Mergulho

Só há o ar salgado em volta de mim. Mas eu posso imaginar que há água. Sim, eu posso. Posso me imaginar submerso numa piscina funda, funda de tão turquesa. A água cobrindo todos meus poros, meus cabelos flutuando em ondas calmas, a respiração suspensa no tempo, tudo leve, aquaticamente leve.

Posso imaginar meu corpo suspenso, flutuando na transparência do azul. Sou capaz de quase sentir o gelo molhando curando minhas dores, as menos amenas. Posso sentir a lentidão de cada movimento, mergulhado que estou, livre que estou, leve que estou. Voando é que estou, num céu subaquático, de estrelas marinhas pintadas e peixes falsos de fundo de aquário.

Posso abrir os olhos e ver tudo turvo, as gotas da chuva começando a ondular a superfície da água, uma folha de bergamoteira que se desprende e vem, rodopiando, servir de barco para qualquer formiga náufraga.

A chuva fica mais forte e cada gota soa como um tambor surdo dentro de mim. Imaginando eu esqueço. Eu lentamente esqueço que existe ainda o ar e que respirar é preciso. Respiro – fundo – e volto. Volto ao ar escuro do quarto. Ainda chove lá fora. Ainda anoitece aqui dentro. E não há, eu sei, nenhum mergulho possível.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Sobre escrever (ou seria sobre viver?)

É assim: eu olho para ver como eles fazem e tento, então, fazer igual. Igual não sai. Não sei moldar do mesmo barro, fazer tudo seguir o fluxo certo, criar a história, tecer o fim. Não sei.

Perco-me no caminho e nas suas beiradas, escorro pelos rios que só cuidam de fluir e fico assim, meio terra, meio nuvem de se caminhar por cima. Porque a mim não interessam os finos seres de papel etéreo. Não interessam enredos nomenclaturas tempos cenários espaços. A mim só interessa o que escorre por dentro (de mim). Interessa o sentimento, nomeá-lo, dissecá-lo e expressá-lo, enfim, seja bicho ou árvore.

Porque o que eu sinto não tem história. Não cabe nos dias normais, no conto cotidiano, na crônica modesta. O que eu sinto é poesia líquida. E a expresso por prosa lânguida. Não sei fazer de outro jeito. Não sei fazer como eles fazem, ou como eles mandam fazer.

E assim perco tempo, buscando caminhos que levarão a prisões de ferro e de concreto apodrecido. Engaiolo os adjetivos e com eles perco a estabilidade das nuvens de giz. Domo a imaginação e, assim, perco a selvageria da palavra não dita. Enquadro tudo nas regras medindo com réguas a gramática certa, só para perceber que no fim, não disse o que sentia dizer. Cuido para não fazer rimas e perco as meninas dos olhos de quem me lê.

Não sei. Não sei ser senão eu escrevendo. E tortura máxima é sentir que eu eu não poderia ser. Porque está errado pelo que Eles fazem, e errado pelo que Eles dizem. E eu só queria minha prosa padrão, capaz de enganar e ganhar concursos de curta duração. Mas não sei fazer conto, não sei fazer poesia. Sei fazer isso que fiz. E não sei que nome tem.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olhos de ver

Não.

Ela não era uma vira-lata marrom e velha, era uma princesa capturada.

Não.

Aquele não era um canil de tela furada, era um castelo com uma passagem secreta.

Não.

Aquelas não eram bergamoteiras em flor, eram guardas de cem olhos brancos.

Não.

Aquilo não era um cabo de vassoura quebrado, era uma espada de prata.

Não.

Aquela não era uma toalha de mesa xadrez, era a capa de um príncipe valente.

Não.

A vizinha não era só uma senhora velha, era uma bruxa que fazia poções e capturava indefesas princesas.

Não não.

Aquele não era apenas mais um menino solitário brincando de faz-de-conta.
Aquele, caríssimos, era eu.


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Inspirado no que vivi, despertado pelo que vi:

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Poema de águas turvas

Derrama-me fora, meu bem,
assim como derramas a água apodrecida
dos teus penicos de louça azul

Derrama-me no barro da casa
debaixo da tua janela, para que eu respingue
nos beijos e trevos de três folhas só

Derrama-me com cuidado medonho
para que eu não salpique teus nervos histéricos,
para que não molhe tuas patas sagradas

Derrama-me de vez, entornando-me todo
misturando-me ao lodo (voraz)
e abrindo as valetas do chão

Derrama-me com o gozo de fatalidade,
com o mais puro tesão, irmão do êxtase
que transforma-se em dor.

Derrama-me fora, meu bem,

pra lamber-me depois.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Os comerciantes

Por entre sulcos e sucos de limão azedo, a tarde desvanece e mercadores torpes tentam me vender suas meias verdades. Um me diz que a sua tem desconto, outro, que a dele hoje está em promoção. Sorriem dóceis enquanto tentam me obrigar a pagar pelo que é alheio.

Vejo facas nos seus olhos quando lhes digo: “obrigado, mas já tenho minha verdade própria”. Eles não gostam e a simpatia aguada se derrete em qualquer coisa ácida, de ligeiro amargor. Recolhem rápidos o sorriso, dobram os panos sujos e um deles ainda escarra nos meus pés, enquanto xinga minha mãe e outras três de nossas gerações.

Ele fala nomes feios em línguas mortas, faz caras tortas e deixa ainda mais azedo qualquer limão. Tudo porque me recuso a seguir verdades – que não as minhas. Tudo porque lhe nego o valor de seus conselhos falhos. Tudo porque ele não admite que juventude possa ser outra coisa que não burrice, que não imaturidade, que não a falta de discernimento.

“Mas é, meu amigo”, argumento ao vento que sua passagem deixa na areia seca. “Juventude é só sinônimo de coisa ainda não vivida, de oportunidade na esquina próxima, de possibilidades infinitas”. O contrário de juventude é velhice, não burrice. E maturidade não depende de números, mas de vivências, reflexões e filosofias agudas.

Falo mais, mas ele não quer ouvir. Já foi empurrar a algum tolo suas verdades velhas, seus pensamentos baços, sua meia alma já pequena e um tanto torta.