sábado, 24 de setembro de 2011

Apoc. 10:4

De repente não entendo.
O mundo explode pelas plantas
em bombas vermelhas e roxas
de fumaça doce tóxica.

Os pássaros gritam de pavor histérico,
atormentando o dia azul.
As abelhas se preparam, fazendo estoque
de mel em bunkers.

O gato, tão preto quanto apaixonado,
espera no muro a última chegada
do amante nu.

Quando beiro a queda,
vejo que tudo já é notícia.
Na capa dos jornais,
apocalipse tem outro nome.

Acima das fotos das explosões
em caixa alta e imprensa alarma:
CHEGOU A PRIMAVERA!

,

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Boneca Russa

O corpo não. No corpo sou tão inevitável quanto todos vocês. Estrutura de ossos, músculos vermelhos, sangues, sêmen e outros fluídos, um emaranhado de nervos, veias e outros trapos. No corpo não há distinções, exceto pelo gato da mão esquerda e pela mancha na panturrilha, também esquerda, há muito coberta pelos pêlos das pernas.

Mas a alma, pressupondo e aceitando que possuo uma, essa é uma boneca russa. Sim, uma daquelas que quando abrimos sempre há outra dentro, e mais outra, e outra e ainda outra, ad infinitum. Só o centro, o gérmen inicial, a boneca mais pequenina, não pode ser aberta ou partida, desconfio. Desconfio porque nem mesmo eu cheguei a ela. E, se acaso chegasse, não escreveria mais. Estaria mudo ou morto. O que, em suma, é o mesmo.

A primeira boneca, a maior, tem olhos insignificantes, insossos até. Olhos de peixe fora d'água. Às vezes, em uma ousadia, ela parece ansiar pela petulância dos eleitos. Não consegue. Na primeira boneca até a petulância é um arremedo tosco. Mas ela se abre.

Quem chega à segunda boneca pode ver que eu sei coisas. Coisas que digo, que reparto, que facilmente dôo a quem pedir. Na segunda boneca estão as escritas, as fotografias, os planos e os afagos mínimos. Tudo que há de se admirar está pintado no colorido dessa madeira.

Mais fundo.

A terceira boneca é uma pândega. E só se chega à ela depois de algumas trancas. Essa tem cores berrantes, um colorido surreal e pinturas de macacos e flores e borboletas de lapela. Essa boneca faz festa e farra a quem vier. Ela é dona do riso bobo, da besteira dita, da besteira feita. É a boneca da graça e de fazer rir. É nela que se perde a pose, os óculos, a inteligência e a cultura. Nessa boneca ainda há qualquer coisa de criança. E de criança arteira. Quem só conhece as outras, nessa boneca nem acredita. E eu a escondo, bem calmo e soturno. Não é digno do tesouro quem não sabe da senha certa.

Quando se chega à quarta boneca encontra-se a ira. Ela foi toda entalhada e pintada pela loucura azul de Ághata. Nela tudo fere como espinho. É a boneca desvairada, a que não se cala. A que implora por briga e só dá tapa de luva. É aquela que chega quando invocada e parte depois do estrago já feito. É minha boneca de vingança e sangue alheio no chão.

Já a quinta boneca é toda preta e branca. Tem uma lágrima pintada debaixo do olho esquerdo. Quase imita um daqueles arlequins que por muito tempo assombraram meu quarto de infância. Essa boneca é de arrepios e quando nela há respingos vermelhos, eles são de puro sangue meu. Essa boneca é adoradora de coisas mortas e uiva pra lua sempre que lhe solto as cordas. É uma das mais finas. Aqui a madeira quase se parte ao menor sopro de vento. É a boneca dos silêncios que não se explicam, das escuridões em dia claro, das masmorras e dos calabouços frios. Não gosto dela, mas ela existe independente do meu gostar. E quase a venero por isso.

A sexta boneca, e aí já é querer ir fundo demais, só uma pessoa conhece. É uma boneca toda tingida de encarnado. É a boneca dos sussurros de dar arrepio bom. É a boneca de mordidas leves no pescoço. De voz rouca e grossa, de puxões e arranhões com unhas de gato. É a boneca que sabe francês, a única delas, e ainda melhor, sabe usar do francês. É a boneca de olhos agudos, de seduções altas, de sensações, de roçar de peles. É ela a aranha responsável por tecer todas as teias, venenosa a ponto de se desejá-la. Vinhos, luares, sabores, bocas e dentes, toda ela é só isso. É força e puxão, é pegada e o sexo no que há de animalesco. E ela tem mesmo traços de bicho. É a que não escuta e que urra, que não toma consciência da própria força, do próprio porte. É aquela a quem nada mais sossega, senão o próprio gozo.

Quando se parte o que é rubro, desponta a sétima boneca. E aqui meu medo já aumenta. Dessa eu mesmo sei pouco. Sei que tem segredos. Sei que age como se fosse Pandora, ou antes sua própria caixa. É ela quem tem lábios costurados, atados nas coisas que não conta, nas coisas que só insinua, nas coisas que poderiam ferir - ou matar. A sétima é a única que realmente chora e não sei a quem ela deixa ver suas lágrimas. No meio dela há a cola. Dela não passo. Nem ninguém passou ainda. Na sétima a aventura minha termina. Mas balançando-a bem, eu sei, é possível ouvir mais. Dentro dela há outras. Muitas até chegar ao cerne que esgota tudo mais.

Eu paro. Temeroso e fiel, eu paro. Mais uma e meu medo seria grande demais. Paro em Pandora e no que ela contém. Paro para minha própria sorte. Deixo ainda dormir aquilo que quer dormir. A boneca menor - e a mais perigosa - ainda reside no ventre de todas as todas. E que assim seja até o seu momento chegar. E que ele demore. E que eu resista. E que alguém assista, nem que seja para contar de toda beleza e horror que pode haver escondido no fundo de mim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

E chove em Tapera VI

— Se ele não parar de tocar isso, vou tacar uma pedra naquela janela.
— Não vai nada. Pára com isso. A música nem é ruim.
— Eu sei. E não é esse o problema.
— E qual é o problema então?
— O problema é que desde antes de vir eu estava me preparando. Me preparando pra não estender essa mão aqui, pra não tocar tua pele, pra não sentir o calor, pra não chegar mais perto...
— Pára.
— Não. Deixa eu falar. A distância às vezes é foda demais. E a distância entre nós é de alguns centímetros só e, mesmo assim, eu precisaria passar abismos pra poder ultrapassá-la. E essa música. Esse é o problema. Ela está me dando asas. Ela está me dando motivo, coragem, coragem de pular o abismo. De chegar meu rosto mais perto do teu. De tocar teu pescoço com a minha boca. De deslizar, de te beijar. Que droga. Eu não queria ter dito nada disso. Eu só queria ter dito que vou sentir sua falta agora que você se vai. E depois eu queria ter ido embora, chorando na chuva pra que ninguém visse ou risse. E agora estou falando sem parar. E a música vai começar de novo. E eu não sei o que fazer.


Detefon, almofada e trato

Quando por conta, já estava no carpete roxo. Não sei. Não mãe, não outros, só os gigantes de falar nhénhénhén. Cheira leite. Parece leite. Tem gosto leite. Não tem leite. É um disco frio. Dizem bebe, gatinho. De fome eu bebo. De pura fome. Queria mãe.

Cresço e fico porque me passam a mão de quando em vez. Durmo deitado no sentador. Ouço a chuva e a vejo da janela sempre. Deito no sol, lambo as patas e fico, vou ficando.

Do pacote saem carnes e legumes e peixes e vegetais, tudo em pedacinhos secos. Os pacotes saem das sacolas de quando eles saem de casa. São bons. Eu entendo. Entendo e fico.

Depois veio ele. Injeção na coxa. Tentei dizer que.

Quando acordo não sou o mesmo. Fico.

Fico. Fico. Fico. Bem comum, eu fico.

Mas um dia eu noto as unhas debaixo das patas minhas. Fofinhas as patas. O menino sempre brinca com elas. Dentro das patas tem unhas. É só apertar que elas saem pra fora. Afiadas elas.

Tento nas árvores. Esticadinho eu as afio. As unhas. É bom arranhar os troncos. Tirar as lascas, sentir tração. Força.

As patas cada vez fortes mais. Eu posso. Logo logo logo eu posso. Eu posso passar a cerca, pular os jardins pra além dos muros, subir e descer e depois tropeçar no mundo. Não é assim. Do jeito todo, não fico mais. Por enquanto fico. Mas depois, eu é que não fico mais. E quando desficar, não volto. Nunca mais gatinho vermelhinho de lacinho pescocinho. Nunca mais.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

De porcelana

Sou perigosamente distraído, eu sei. E às vezes me descuido todo. Meu coração, por exemplo, em algum momento deixei ele cair no chão e nem me dei por conta. Na pressa, devo tê-lo ajuntado de qualquer jeito, espanado a poeira um pouco e colocado-o de volta, sem perceber as rachaduras fininhas.

Com as viagens e andanças, os tremores internos e os terremotos pequenos, ele foi se rachando mais e mais. Bem silenciosamente, sem os ruídos que denunciariam as pequenas raízes que se abriam na porcelana vermelha e dourada. Mansamente ramos se abriam em outros ramos e, sem que eu esperasse, o coração todo me caiu em cacos.

Talvez viesse o desespero, não estivesse eu tão acostumado a quebrar coisas. Botei tudo no lugar, aquele amontoado de lascas e cacos e pedaços que não se encaixam mais. Estou vivendo com isso, com essa confusão de pedaços pontiagudos. Tudo em mim agora dói e emociona e apaixona e alegra e entristece, ao mesmo tempo.

Veja, nesse caco você. Naquele a dor do meu vô. Nesse a loucura de Ághata. No maiorzinho a alegria que me dão meus maus adolescentes. Naquele outro, de ponta fina, uma solidão. Naquele ao lado, um prazer. Nesse saudade. Naquele desejo. No outro tristeza. Em algum a esperança...

Cacos meus, sem unidade, sem cola que me permita ter um coração inteiro de novo. Ainda assim, eu tento. Vou encaixando os pedacinhos, desfazendo meus enganos, desistindo de alguns deles, procurando outros que não devo ter recolhido, moldando peças novas. Tentando, enfim, ter um coração de novo inteiro, como o seu e o de todo mundo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

No meu divã, com Dr. Rilke

"[...] Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples "Preciso", então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.

[...] Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza - descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas;" [grifo meu]

De: Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta

sábado, 10 de setembro de 2011

XII - O Enforcado



No meu tornezelo, amarrada está a corda vermelha. Não vou longe. Quando penso demais em vôos e voltas, a corda fica tesa e me derruba de pronto. No tornozelo direito, tudo que há de racional em mim, todas as coisas concretas, as contas, as canetas, os livros comprados, os textos empacotados, os sentimentos guardados, tudo amarrado na outra ponta da corda.

Às vezes tento roer a corda, esfiapo alguns centímetros, encho meus caninos de fibras vermelhas. Em vão. Eu mesmo remendo a corda depois, reforço, dou mais um nó, prendo bem, testo a distância e a encurto mais.

E se não há corda suficiente, corto as pontas das asas, como fazem com os pássaros verdes. Ou arranco minhas penas de cera - as mesmas que me impedem de chegar junto ao Sol.

Sou todo refém de mim e de minhas próprias armadilhas. Traço planos de liberdade à noite e reforço a segurança no dia seguinte. Eu me prendo porque tenho medo de onde poderia chegar caso fosse livre demais. Medo da loucura de me encontrar ao extremo. Medo de gostar da insanidade. Medo de realizar meu sonho de infância: o hospício.

Nestes medos eu penso que me prendo para minha própria segurança. E no fim não é. Eu me prendo pela comodidade, pela preservação da espécie, pela imobilidade que só tem aquilo que se prende. Para evitar os arranhões, as marcas, as cicatrizes.

E me prendo também para poder sonhar ao invés de viver, pra poder cantar e ter alguém para ouvir. De besta, me prendo de besta mesmo. E sei que estou assim, sei que estou errado, sei que queria muito mais do que minha cordinha vermelha. Mas não sei onde encontrar coragem para prosseguir. Não sei onde encontrar tesoura afiada o suficiente para eu não me arrepender. Não sei onde me desencontrar. Perdão, não sei.