quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

...ou me devoro.

Eu queria escrever, mas parece que esvaziou-se a inspiração. Como se lá, aos quinze anos, eu tivesse um manancial ilimitado de temas, de textos, de frases bonitas e de efeito. E, agora, aos 32, me restasse uma bacia vazia, com um leve toque de umidade no fundo, que eu insisto em tentar lamber.

Procuro na internet por plots gerados automaticamente, por desafios como aqueles que precisam incluir café, bola e azul no mesmo texto. Não encontro. Ou, se encontro, não me encontro diante do que é gerado. Ouvi uma palestra, certa vez, em que um autor afirmava que esses desafios criativos obrigam nosso cérebro a pensar em soluções pouco convencionais e, assim, instigados, somos capazes de ir além, de pensar fora da caixa e, quando vemos, a obra surge.

Nada surge daqui. Mais do que da palestra, me lembro agora da minissérie Maysa, exibida na Globo há alguns anos. Lembro muito bem da cena em que a protagonista se perguntava se precisaria cantar as dores dos outros, tendo tantas que são suas. Eu estou assim também. Será que preciso encontrar a inspiração fora, tendo tantas histórias minhas para compartilhar? Ou será que o mecanismo que convertia minhas misérias em textos se quebrou de tanto ser criticado?

É mais fácil pensar assim. Pensar que já me disseram tanto que eu me expunha demais que me fizeram calar para sempre, como fazem calar as crianças na escola, que aprendem desde cedo a não erguer o braço para perguntar. Trinta e dois anos, um doutorado nos ombros e escrevo em um blog, feito um adolescente qualquer. Um blog que não divulgo, que não quero que vejam, que prefiro que acreditem morto e bem, muito bem enterrado.

Talvez eu devesse usar um diário para isso, como aquele, com arquivo criptografado no meu desktop. Talvez eu devesse escrever a punho, mas como se isso não impede que me leiam em casa? Ou eu me exponho demais, ou me invadem a privacidade inteira. Não há meio-tom. 

Escrevo e a sensação dos dedos batendo no teclado me fazem lembrar de outros tempos. Tempos em que eu assistia seriados na Globo, escrevia ao entardecer e, assim, conseguia me entender. Conseguia fazer sentido. Porque, sinceramente, eu não tenho sentido mais. E, aqui, "sentido" adquire o caráter tanto de verbo quanto de substantivo. Eu não tenho mais uma explicação, um motivo para seguir. Entende?! Não na vida. Não estou falando aqui em suicídio. Estou falando que não tenho sentido enquanto sonho, direção. É isso? Também não sei. E, ainda, não tenho mais sentido as coisas plenamente. Sem usar as palavras para descrever meu peito, é como se ele estivesse vazio de qualquer sentimento. Como se ele só batesse, autômato, porque bater é a sua missão e foi esta a ordem dada no início dos tempos: bata! E ele bate. E eu apanho, sem compreender o porquê.



"Como é que eu vou poder cantar se a minha dor está envergonhada, está fora de moda, está parada pra pensar.
Como é que eu vou contar as minhas tristezas se elas estão tão enroladas que nem eu mesma sei.
O que foi que restou da minha vida?
Onde estão as minhas mágoas?
Onde é que eu estou?
Será que eu vou ter que cantar a tristeza dos outros, tendo tantas que são minhas?"

trecho da série, publicado aqui em: 09/01/2009


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Quanto mais as coisas mudam...

Você já se pegou preso nas suas próprias palavras? Como se elas formassem uma jaula, uma armadilha, uma camisa de força, uma poda às raízes, algo que te impede. Impede de sair para o mundo, de crescer, de fazer a diferença, na sua própria vida, inclusive.

Você faz planos, você tece ideais, você cria sonhos depois de sonhos em suas noites insones. Você imagina o que faria se tudo desse certo, o que conseguiria se as coisas mudassem agora, hoje, por um golpe de sorte, por uma bênção de Deus, por uma graça da Fortuna. Você imagina. Você planeja. Você cria mil universos alternativos e tenta atravessar para cada um deles.

Mas você quer isso de fato? Você quer, com todo seu coração, que a mudança venha? Ou você está preso. Preso nos cômodos cômodos da sua própria vida. Preso na casa que você se construiu e nos problemas que você gosta tanto de acariciar. Amarrado nas palavras que você usa, na cantilena de suas reclamações, que é chata, é demorada, é repetitiva, mas pelo menos faz você dormir.

Nos prendemos em nossas palavras e, ao mesmo tempo em que ansiamos pela transformação, não queremos que nada mude. Enriqueceríamos na loteria, mas continuaríamos a ir trabalhar na segunda-feira. Para disfarçar, diríamos no começo, tentaríamos nos convencer. Para ninguém suspeitar que fomos nós quem ganhamos tantos milhões. Mas e depois? Depois viriam outras segundas. Eventualmente, poderíamos desistir. Por um incômodo qualquer. Mas talvez relevássemos. Talvez, acostumados que estamos, relevássemos mais isso. Para quê? Para podermos continuar. Para nos mantermos fiéis às palavras que costumamos usar, às queixas que aprendemos a ter.

Seríamos milionários, acreditando que o dinheiro não traz felicidade. Seríamos milionários e moraríamos na mesma casa. Ou, quanto muito, na mesma cidade. Seríamos milionários e viajaríamos nas férias para o litoral. Santa Catarina. Nordeste no máximo. Seríamos milionários, mas seríamos nós e não pode haver desgraça maior do que esta. De que vale tanta mudança, se não nos mudarmos para Bali para criar carneiros? De que vale tanto dinheiro, se não abrirmos um estúdio de tattoos na Califórnia? De que adianta sermos milionários se não perdermos tudo na bolsa, investindo em ações de uma fábrica de camarões sintéticos, somente para pularmos de um prédio de Shangai depois?

De que valeria mudar tudo, se nós ainda fôssemos os mesmos? 


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Palavras

As palavras são negras. E assim devem ser. As palavras me mancham de tinta. Há chumbo nela e eu me contamino. Desde sempre. E assim deve ser. Eu escolho quais palavras escrever. E escolho as piores, quando é sobre mim que falam. Escolho as palavras que Ághata me diria, se não preferisse sempre me ferir com seu silêncio.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

The loser takes it all



I don't want to talk
About the things we've gone through
Though it's hurting me
Now it's history
I've played all my cards
And that's what you've done too
Nothing more to say
No more ace to play


Ontem à noite, antes de dormir, eu revisitei minha vida. Ano a ano. Momento a momento. Foram 32 cenas. 32 dos momentos em que já me senti mais sozinho na vida. Eu bebê, sendo abandonado pela minha mãe - desculpe, não há outro verbo que eu consiga engolir aqui -, eu sendo castigado pela Ághata, eu sendo desprezado pela primeira menina que eu amei, eu voltando do acampamento com um conhecido, eu no momento em que soube da morte do meu pai. Muitos eus, enfim. Eu visitei e abracei um por um. E foi reconfortante. Reconfortante porque, hoje de manhã, enquanto eu estava aqui no IF e preparava um chá preto para mim (estou fazendo escolhas melhores agora, ou quase), eu pensei na solidão disso tudo, na minha vida do jeito que está, na instabilidade que eu sinto se aproximar por todos os lados. E pronto. Eu me senti visitado, me senti abraçado, valorizado, de algum jeito, eu me senti visto. Visto por um eu futuro. Um eu que vai poder se lembrar disso um dia e voltar aqui, pelo menos em lembrança, e me abraçar forte por um segundo ou dois.


The winner takes it all
The loser standing small
Beside the victory
That's her destiny

E então me veio toda a vontade dessa música. Pelo ritmo, mais do que pela letra. Pelo ritmo e pela voz da Carla Bruni, que sempre me fez viajar. Eu reconheço minhas paixões pelas minhas trilhas sonoras e quem as guia agora é "Nine millions bicycles" e tudo que vem com ela. Apaixonado é uma palavra forte ainda, confusa ainda. Mas acho que é a palavra certa. Porque a paixão é intensa. Porque a paixão é insana. Porque a paixão nos faz confundir bem e mal, nos faz odiar tanto quanto amar. Acho que é isso, então. Acho que estou apaixonado por mim. De um jeito instável. De um jeito melancólico. De um jeito autopiedoso até. Mas isso é melhor do que o desprezo de todo. Coloquei o fone, dediquei a música a mim, enquanto a água se tingia com o chá.

I was in your arms
Thinking I belonged there
I figured it made sense
Building me a fence
Building me a home
Thinking I'd be strong there
But I was a fool
Playing by the rules


Uma cerca, uma casa, meus muros, minhas regras. O que esse eu futuro vai pensar do meu eu passado? Desse de agora, daquele que, adolescente, começou isso de blogs? Ele vai saber que ainda somos o mesmo? Que ainda temos os mesmos dramas? Que a gente ainda luta contra as grades, mas ai de quem tentar tirá-las de nós? Eu jogo pelas mesmas regras desde sempre. As minhas regras, que agora já não me machucam mais. Agora que eu já entendi que comigo é assim. Que eu nunca vou ter a vida das pessoas nos filmes. Nunca as histórias dos livros. Porque, na ficção, sempre há redenção. E eu no fundo nem a quero. Só fui convencido, em algum momento, de que a queria. Está tudo bem em se abraçar sozinho, se é assim que você se sente menos tenso, confortável.



The gods may throw a dice

Their minds as cold as ice

And someone way down here

Loses someone dear

The winner takes it all
The loser has to fall
It's simple and it's plain
Why should I complain


Sempre que escutei essa música, me identifiquei com o loser.  Não é engraçado como somos preparados para isso? Para perdermos e acharmos bom? Nos desenhos, nas fábulas, nos filmes. É sempre do coitadinho que aprendemos a gostar. Desde a tartaruga e a lebre. Ah, mas ela é a vencedora! Sim, mas só para nos fazer gostar mais de quem tem tudo para perder. Eu ouvia essa música hoje e me lembrava dos desenhos, do Papa-léguas, do Tom & Jerry e todos os outros dessa mesma linha. O papel de vítima e predador invertidos. O Coiote, o Tom, sempre como losers. E era sempre com eles que nos identificávamos. Não, não queríamos que eles comessem suas presas. Mas cada frustração aceita, teimosamente aceita, era uma lição nossa, uma lição de continuar mesmo caindo de todo penhasco possível. Mesmo não conseguindo jamais. Jamais. Porque havia em nós a certeza de que eles não venceriam. (Como nós.(?))



But tell me does she kiss

Like I used to kiss you?

Does it feel the same

When she calls your name?

Somewhere deep inside
You must know I miss you
But what can I say
Rules must be obeyed

Hoje eu não quis me identificar com o perdedor. Hoje eu quis ganhar tudo, levar tudo, pegar tudo que há daquilo que já perdi. Hoje eu não quero falar do que foi, não quero voltar e arrancar cascas de feridas que já viraram cicatrizes. Não há mais o que fazer nesse sentido. Então vou pegar tudo, carregar tudo que aprendi e ser vencedor, nem que seja sobre mim mesmo.



The judges will decide


The likes of me abide

Spectators of the show

Always staying low

The game is on again

A lover or a friend
A big thing or a small


The winner takes it all


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Post Confuso...

Hoje, não sei por que cargas d'água fui parar em 2004. Fui parar no início deste blog, ainda em outra plataforma, ainda cheio de sangue pingando e caveiras e cemitérios. Ainda quando eu acreditava que seria escritor e que teria minha vida inteira transformada pelas palavras. E tive. De certa forma tive. De certo modo eu consegui mesmo viver em função da escrita, embora não do modo como imaginava lá.

Entre os textos, um deles me chamou a atenção. Porque, na época, não era para mim. Agora é. Agora eu senti mesmo como se ele fosse uma mensagem minha para mim. Sabe como é?! Como aquelas cartas antigas que escrevemos para nós mesmos e escondemos, na esperança de encontrá-las algum dia no meio de um livro velho e empoeirado.

Estou me perdendo no discurso. Estou sendo clichê desde o começo. E não me importo. Minha escrita hoje tem sido muito cuidada, muito educada, sentada de pernas fechadas e mãos sobre o colo. Sem mexer em nada. Minha escrita aprendeu a ser acomodada. Aprendeu a sorrir para as visitas, polida, muito polida. Mas pouco prática, pouco espevitada, pouco espiritualizada. Minha escrita ficou asséptica. Ela que antes era toda alma. Minha alma.

Volto para cá, de novo. Em perdão das redundâncias. Volto porque ninguém mais vem aqui. É casa vazia no meio do nada. Casa na qual eu posso gritar e gritar e gritar. Ninguém escuta. Volto e volto lembrando dos caminhos que eu fazia. Dos Posts Confusos, por exemplo, em que eu enveredava em assunto atrás de assunto atrás de assunto. Acho que é isso que está nascendo aqui. Porque não me controlo mais e tudo vai fluindo, brotando, natural pela primeira vez em muito tempo. Eu sinto que poderia passar o dia inteiro aqui, escrevendo sem parar, sentindo o gosto amargo que tenho na boca, o frio dessa sala do IF, olhando de soslaio para a caveira sobre a mesa que não é minha mesa e pensando em tudo que ela me tirou durante este ano. Ou melhor, em um só dia.

Do Vinícius de 2004, veio isso:

Estou escrevendo só para dizer que sei como você se sente, a confusão faz parte de nossas vidas, mas tudo muda um dia, por isso, melhor não desanimar. Na próxima noite, quando a Lua nascer nessa terra distante, e próxima que te encontras saiba que fui eu que pedi para que ela iluminasse tua vida. E se nessa noite a Lua não aparecer, não temas pois até ela preferiu deixar que nosso amor se concretize no momento certo. Apesar de não te conhecer, sinto sua falta. Saberás que é para ti no momento em que ler. O destino se encarrega de certas coisas quando os sentimentos são verdadeiros. Nem sabes o quanto queria fazer parte da tua vida, porém, como não posso espero, espero para ter-lhe em meus braços novamente, como da última vez. Espero que olhes para a Lua, mas espero também que sintas o vento. Sim, isso mesmo, mandarei também o vento para acariciar sua pele. Logo depois de ler isso, vá até uma janela, o que sentirás é um beijo, transformado em suspiro e levado atá você pelos Silfos. Não se sinta sozinha. Estou ao seu lado, basta você notar...

Ele sabe como eu me sinto. Eu sei como ele se sente. Ainda somos o mesmo em tantos níveis, tantos. Ainda somos a mesma esfinge sem mistério. Ainda tentamos impressionar. Ainda procuramos, desesperadamente, por um amor. Um amor próprio. Ainda temos alguma crença em luas que iluminam vidas. Ele não me conhecia, mas sentia falta de mim. Eu não o esqueço e sinto saudade dele. Eu soube. Soube no momento em que eu li que esta mensagem não era para uma menina qualquer da época. Era para mim mesmo, hoje. O destino se encarregou de trazer o texto para mim. Eu prometo reparar na lua, que nem sei em que fase está. Eu prometo me deixar beijar pelo vento, em vez de reclamar da sujeira que ele traz. Eu vou até a janela, assim que puder. Mas não sei se consigo me sentir menos sozinho. Menos desamparado.

A escrita faz isso. A escrita fez isso por mim em grande parte da minha vida. Desde 2004 e antes, muito antes. Eu conseguia colocar na tela o que tinha na alma. Agora não sei se consigo ainda. Tudo me parece muito privado. Eu me pareço muito fechado. E se alguém ler? E se alguém vir? E se alguém me julgar? O meu menino de 16 não se preocupava com isso. Ele queria ser visto, ser lido, ser comentado. Ele estava ansioso por isso. Eu não estou mais. Ou estou ainda, só que de um jeito diferente. De todo modo, nós dois queríamos sumir. Nós dois fugíamos das fotos e dos espelhos. Nós dois lidávamos com o que  não podíamos entender, enquanto flertávamos com a morte e fingíamos saber alguma coisa sobre ela.


 

terça-feira, 8 de maio de 2018

Estrelas de artifício

Volto para casa, sozinho outra vez, e as luzes nas antenas são estrelas de artifício que me fazem lembrar você. Elas não entendem porque são tão sozinhas, essas luzes, pontos fixos e distantes uns dos outros. Enquanto isso, elas olhas, na imensidão acima, todas as outras estrelas, as de verdade, quase se tocam. Elas não sabem, as estrelas de artifício, coitadas, que lá em cima a solidão ainda é maior. Que o que parece próximo, pontas quase se tocando, pode estar a anos luz de distância. Elas não sabem, e você não sabe também, mas a minha solidão é maior do que a sua. Porque em você existe, meu bem, a possibilidade.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Gueixa


Não aguento mais cumprimentos vazios. Com sorrisos então? Não! Não quero ser uma gueixa leve que sorri e reverencia a cada um que passa e ergue dois dedos do volante. Eu quero mais.

Eu quero um toque que não seja de recolher. Eu não quero ser inalcançável. Mas como se desce do pedestal? Contornando a chuva e o vento. Como se pega o mundo e morde? Sorrindo. Mas meu sorriso é só mostrar de dentes. Como um cão que ladra, ladra, ladra. Não mordo nunca? Morder a quem. Morder a quem não é muda pergunta. É minha resposta.

Pelo menos uma vez por dia eu ouço tocar uma mesma música. É a sua? Eu não posso dizer. Pelo menos uma vez por semana eu chamo pelo Superman. Pode ser você? Não posso dizer. Isso é o que me tece por dentro. Isso é o que me embrutece e me faz acenar, como gueixa, com um sorriso falso para cada um que passa.

Nem grito, nem choro. Nem terno, nem nu. Meio morto, meio termo. Vou acenar se você passar.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Imploração

Eu sempre fui feito de sonhos. Muitos e mudos. Aos poucos descubro, porém, que eles são tão soltos que de nada adiantam. 

Não adiantariam nem mesmo se eu soubesse para quem pedir suas realizações.

Pedir é uma arte. A única que eu não conheço. 

Até meus quereres mais simples, meus desejos de poço, minhas implorações por sossego, por exemplo, só sossego, de poucos dias, meu Deus, sossego, até eles me são negados.

Nada do que eu quero me é dado. E deve ser porque eu não sei como e nem a quem pedir. Porque se eu falo, se eu rezo, se eu digo qualquer coisa, eu o devo fazer em uma língua morta. Junto com minhas preces, está sempre entrelaçado um feitiço de esquecimento. No momento em que eu digo algo, já nada se disse. 

E a cada prece esquecida, a cada sonho despejado com a água do banho, a cada dia em que nem o mais simples me é dado, eu me torno mais frio, mais distante, mais brutalmente feito de rotina e raiva. Até que só elas restem, justo elas, no meu coração que já foi todo feito de sonhos.



sábado, 20 de fevereiro de 2016

E chove em Tapera VIII



— Eu achei que ia chover.
— O quê?
— Quando você me ligou. Eu até achei que ia chover. Quanto tempo faz mesmo?
— Não sei...
— Tempo demais. Faz tempo demais. Por que agora?
— Olha... Eu precisava cumprir uma das minhas promessas.
— Que você não vai me contar.
— Não. Não vou.
— Você continua com seus mistérios...
— Eu achei que você gostasse deles.
— E eu gosto. Ou melhor, gostava... É só que eu já me desacostumei. Quando você estava por perto era sempre um ponto de interrogação.
— E agora?
— Agora minha vida é só vírgulas. Só continuações e continuações, tudo sempre igual, a vida imersa na mesma rotina de merda. Muita coisa mudou sem você. Ficou sem graça.
— De repente foi porque crescemos.
— Não foi. Ou pelo menos não foi só isso. Era diferente. Lembra da história que você ia me entregar em partes?
— Aquela que você disse que não era minha...
— É... Olha, desculpa por isso.
— Eu terminei. Há uns oito anos eu terminei de escrever.
— Mesmo?! Eu posso ler?
— Acho que não... Ficou ruim.
— Você disse que aquela era a nossa história.
— Por isso.
— Sabe, eu não entendo porque você me chamou aqui.
— Porque eu não tinha ninguém mais a quem chamar. E eu precisava cumprir uma promessa, já disse.
— Eu tinha me esquecido de como pode ser intenso.
— O quê?
— Ficar perto de você.
— Digo o mesmo.
— Tá, mas e agora?
— Agora o quê?
— O que a gente faz aqui, e sem chuva ainda por cima?

sábado, 1 de agosto de 2015

F I M

Fim. Foi o fim, mas eu não escrevi assim, “FIM”, quando terminei. Para isso eu não tive coragem. Hoje foi um dia pleno dessa falta de coragem, aliás. As horas se arrastaram em cada segundo. Eu cheguei a pensar duas ou três vezes em adiar, em deixar o término para amanhã, mas então eu não pude mais.

Eu lembrei de uma aluna minha. Ela escreve uma fanfiction chamada “Meu príncipe arrogante”. Cada vez que a história está para terminar, ela emenda um novo conflito, outra complicação, uma mudança de rumo. Ela não consegue deixar a história ir.

Eu expliquei que ela precisava fazer isso. Eu expliquei que, na ficção e na vida, as coisas acabam.
Fácil dizer, difícil fazer.

Nessas férias de inverno, eu travei um compromisso comigo: o compromisso de que eu seria um escritor. Pelo menos por esses quinze dias eu escreveria. Eu cumpriria uma meta. Eu colocaria no papel o romance juvenil que eu queria.

E eu fiz isso.

Três mil palavras, no mínimo, todos os dias. Eu consegui. Letra por letra, eu teci a história que eu precisava contar. E que história. Ela foi importante de um jeito que eu ainda não posso medir. Importante porque ela despejou para fora muito de mim. Ela perdoou muito do que me aconteceu. Ela me revelou e me fez compreender a criança e o adolescente que eu fui. E que continuam sempre em mim.

Hoje foi o dia de terminar. O dia de dizer adeus para os amores e medos que eu criei. Hoje bateu a insegurança. Eu fui escritor por este tempo, mas e agora?

Sim, eu sei, ainda há muito por burilar. Para ser sincero, agora é que o trabalho começa. Revisar, cortar, incluir, corrigir, mudar. Mas mesmo assim, a história já existe. Nenhum personagem mais vai surgir e me surpreender. Nenhum medo e nenhum amor virão, além daqueles que já existem. Eu não vou parar meu dia para pensar nesses meus filhos de tinta. Eu já coloquei no papel tudo de mim, meu coração inteiro. E agora?

Meu Deus, como é difícil terminar uma história assim. Eu já sabia o que ia acontecer. No começo eu achei que sabia de tudo. Aí veio o livre arbítrio “deles” e o final mudou inteiro. Mesmo assim, hoje eu sabia o que precisava escrever. Mas eu adiei. Meu Deus, como eu adiei.

Talvez eu fiz isso porque soubesse só o que aconteceria no final deles, não no meu. O livro terminou. Clarissa disse adeus. Mas eu não disse ainda. Eu não escrevi “FIM”. E enquanto eu não escrever, não termina. A minha história não termina.

Para dizer a verdade, eu tenho a impressão de que ela começa agora.

A minha história começa agora.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Soma errada

Às vezes eu faço as somas erradas.

Especialmente se a conta envolver tempo e sentimento. Eu erro. Sempre. É que eu penso em proporção e às vezes não é. Só não é. Eu penso, por exemplo, que o tempo passando nos torna uma adição. São mais momentos, são mais experiências, são mais exemplos de como a maturidade nos transforma.

O problema está na operação inversa. O problema está em quando eu volto, por algum motivo, ao passado. Quando eu vejo o que eu sentia, o que eu pensava, o quanto eu me expunha. E então eu descubro que o tempo, em algum aspecto, me diminuiu. O tempo me deu experiência, é verdade, mas me tirou a espontaneidade. O tempo me deu mais momentos, é claro, mas ele me tirou a intensidade do que virá. Tudo agora é só uma variação do mesmo. Há pouca novidade nos dias de quem já os viveu. O tempo me trouxe maturidade, isso é certo também, mas ele me tirou a empolgação e a ousadia que só os imaturos têm.

Meus erros – não os de cálculo, os de vida – me são vitais. E o tempo me dá cada vez menos deles. O que fazer com acertos? Eu não sei lidar com eles. Queria de volta as incertezas, as esperanças, as expectativas, as oportunidades e as ilusões. Queria de volta o meu eu que eu perdi, entre somas, divisões e multiplicações.

Números errados. Vinte e três foi mais do que vinte e sete. Eu só não sei como refazer tudo, trocar os números, esquecer as vírgulas e apagar os zeros. Não, não reviver, não retomar, não voltar. Não quero nada de volta. Quero menos, menos do que isso, ainda menos do que tenho. Quero a coragem dos números negativos, do que ainda virá a ser. O tempo só me deu receio e precaução. Quero a coragem de quem acredita, quem se acredita, especialmente. Mas qual é a fórmula para isso? Qual é o sinal que uso? Quanto tem que dar a resposta da vida, afinal? Eu não sei. Mas tenho a impressão de que troquei algum número de lugar. Tenho a impressão de que o meu resultado será aquele para o qual não há alternativa. E deveria haver. Deveria haver uma alternativa. 

domingo, 1 de março de 2015

Palacete da Glória tem infiltrações e corre o risco de desabar

Às vezes o mundo inteiro fica borrado, mesmo que meus olhos estejam secos. Sou difícil de chorar, mas sou fácil de sentir. E isso é um problema, porque não demonstrando, eu acumulo tudo e calo. Fico completamente mudo, mas a três passos de transbordar sem volta. E ninguém desconfia. Ninguém suspeita. Por isso é que me pensam forte e esse é o problema. Não sou. Sou todo esfarelado, de coração em pleno craquelê.

Às vezes eu sinto que chorar desfaria meus nós de trás dos olhos, aliviaria a pressão, não sei se no peito ou na alma – caso alma exista. Então eu me esforço, eu vejo filmes tristes, eu ouço músicas melancólicas e quase consigo. Chego muito perto. Consigo até inundar os olhos a ponto deles doerem. Mas no momento final, quando a primeira lágrima estaria prestes a romper a última resistência, eu lembro que é por mim que choro. E então não consigo. Então o meu organismo reabsorve a água e o sal que me exorcizariam de mim. Choro para dentro e isso não vale. É mais acúmulo para minhas enchentes interiores, é mais pressão a uma vazão que não tem força.

Estou assim, sufocado, farto, suicida até. Porque não há mais lugar para nada aqui no peito. E as lágrimas vertem, incessantes, mas só por dentro, infiltradas em cada uma das minhas estruturas, danificando paredes, pinturas e pilastras. A maresia me corrói e estou a quilômetros do mar, a água me inunda e há semanas que não chove, a tristeza me afoga e por fora eu sorrio. Eu ainda sorrio. De quê, meu Deus, de quê?


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Eu, heterônimo

Eu tive, por algum tempo, um heterônimo. Ele surgiu, na época, por conta de alguma paixão difícil e como uma possibilidade de publicar o que eu sentia sem ser, no caso, eu. Ele nasceu, no fim, para poder escrever por mim.

Em pouco tempo, porém, passados os arroubos da paixão, ele não passou. Ele resistiu bravamente, publicando o que ele mesmo sentia e tecendo uma vida inteira ao meu redor. Hoje percebi a verdade.  Nesse heterônimo eu criei a vida que deveria ser a minha. Ele, que começou escrevendo por mim, terminou vivendo por mim.

Em meu perfeito avatar, eu podia amar, morar na cidade que sempre quis, ser solitário e profundo e humano. Ele viveu – e vive ainda? – do jeito como eu me imaginava viver. E então ele me ultrapassou em profundeza e entrega.

Hoje, entregue a uma epifania, eu não consigo compreender por que eu dei a outro (e me satisfiz com isso, o que é pior) a vida que deveria ter sido minha. Minha a solidão, meu o apartamento, meus os amores passageiros todos que ele teve, meu o texto às duas da manhã, meu o encontro no museu e tudo mais que eu entreguei a quem nunca existiu.


Não é tarde para tomar de volta. Para roubar-lhe o rosto, a nostalgia e a ousadia. Para ser eu o heterônimo dele.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Under the stars

É a primeira vez que sento aqui sob o olhar deles. Em meio a estrelas de puro glitter, eles me olham escrever, me vigiam, me incentivam. É para isso que eles estão ali. Clarice, a maior, me olha bem nos olhos, feito mãe orgulhosa. Confiante, dizendo “É isso aí! Vai!”. Virginia deve ter acabado de dizer algo engraçado porque Martha ri sem parar. Frida, alheia, faz alguma pintura, mas sei que é para mim. Katherine não gostou de eu tê-la colocado ao lado de Amelie, menos ainda de tê-las comparado, fisicamente, eu digo. Algo nos cabelos, não sei. Caio ri muito e está ao lado do cantor que sempre, sempre, liguei com ele. Talvez eles tenham se conhecido. A impressão é forte. Neil sorri, sabendo que eu compreendi o que ele diz na frase de número 3. Julie parece prestes a ir embora, ela é quem me lembra das complexidades do amor. Oscar se inclina para me ouvir cada vez que leio em voz alta. Ele se interessa e sinto que virão dele as críticas mais severas e, portanto, as mais úteis. A tela do computador quase se deita para que eu possa ver os outros. Renato me traz rosas numa foto que já foi comparada comigo. Érico descansa entre uma vírgula e outra, enquanto o exato oposto da Bruma se desenrola pelo piso, atrás dele. Eduardo quase não aparece, envolto em sombras. As mesmas que ele usa na vida real. As mesmas. Elleanor se funde ao fundo, discreta que é, sussurrando que é preciso inovar em cada inspiração. Eduardo sorri simplesmente. Ele sabe. Lionel só me espia. É de uns toques seus que eu preciso só. Sobre tudo uma menina voa, frases pululam e um jornal anuncia uma mulher que veio de longe. Eu sei quem ela é. Eu vim do mesmo lugar. Uma ponte na qual ninguém vai completa o cenário, é onde eu quero chegar. É lá a próxima parada. Em um canto, um resto esquecido. Três fotos, por enquanto, de ponta cabeça. Emborcadas para me lembrar, especialmente, o porquê de eu conseguir. É porque eles conseguiram. Esses fracassos, essas fraudes, essas famas inglórias. Eles conseguiram, então eu posso também. Esse é o primeiro texto que escrevo sob olhar deles. E sinto que consegui chegar exatamente no que queria. No sentimento que eu desejava, no encorajamento que agora me possui. Tudo vale. Como repete Neil. Faça o que for preciso. Responda às três perguntas no centro de tudo. Acredite. É isso que eles me dizem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Há temporais, por fora e por dentro

Hoje, quando o temporal chegou, eu cuidei bem. Primeiro tudo ficou quieto, como que à espera. Tudo parou, de repente. Depois é que vieram as nuvens, escurecendo a cidade, acendendo os postes de luz, espantando cachorros e gatos da rua.

Depois veio o vento, fechando janelas, batendo portas, varrendo as folhas da calçada. Só depois veio a chuva, forte, vigorosa, lavando tudo.

Hoje eu cuidei bem. Cuidei porque em mim também se faz temporal. Também se acenderam  as luzes, também se varreram as folhas, se bateram as portas. Eu estou em pleno temporal. Por dentro. 

Eu cuidei como foi. Cuidei porque é preciso pará-lo em algum momento. O temporal em mim, quero dizer. É preciso colocar tudo em nova ordem, terminar. Com as nuvens, com o vento, com a chuva. É preciso fazer tudo ficar bom de novo. Fazer calmaria brotar de algum lugar.

Eu cuidei, mas me fascinei tanto pelo barulho da chuva que adormeci. Não vi como ela parou. Não aprendi, ainda, como se faz para o temporal terminar. Talvez porque, no fundo, eu sei que nada depois dele vai permanecer como era. Será preciso reconstruir tudo. E já não sei, se em mim, há disposição para tanto. Não sei.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Se isso fosse um musical

Se isso fosse um musical, essa seria a parte em que eu me levantaria daqui, derrubando a cadeira, deixando virar o copo d’água sobre a mesa, atirando no chão os livros sobre a escrivaninha. Tudo em câmera lenta, com close em cada objeto. Não haveria raiva em mim. Talvez alívio.

Então eu sairia pela porta enquanto a música aumentasse, gradualmente. Depois eu cruzaria o portão, indo para o meio da rua. Atrás de mim algum carro pararia buzinando. Mas eu não olharia. Não, eu não olharia para trás nem uma vez.

Eu estaria cantando. Eu cantaria em voz grave, baixa no começo, ganhando confiança quando os primeiros pingos de chuva começassem. Sim, se isso fosse um musical começaria a chover conforme o céu fosse escurecendo e eu fosse caminhando, sem parar.

A chuva cairia sobre o meu rosto, molharia meus cabelos, grudaria ao corpo as minhas roupas. Eu tiraria meus óculos e derrubaria no chão. As luzes da cidade acenderiam. Eu já estaria no centro, então. A câmera mostraria meus passos, já descalços, enquanto o asfalto molhado refletiria os postes, tremulando a cada gota que caísse.

E eu continuaria cantando, se isso fosse um musical. Eu continuaria andando, se isso fosse um musical.

Aos poucos, as casas ficariam mais esparsas, os campos seriam iluminados pelos carros que passassem, pelos raios que viessem, enquanto eu continuaria, no centro do asfalto, saindo daqui. Deixando tudo, copo quebrado, livros, os fones balançando no escritório.

Eu sorriria, então. Sim, eu sinto que poderia sorrir se isso fosse um musical. Eu sorriria de braços abertos enquanto a chuva viesse e eu continuasse a andar, de olhos fechados agora, cabeça erguida, sentindo no rosto o vento e cada gota da chuva.

A janela do escritório apareceria, então, aberta. A chuva entrando por ali, empoçando no chão, nos livros, tudo iluminado só pela tela do computador, na qual aparecem essas letras, começando por “se isso fosse um musical”. Depois, os meus óculos apareceriam, quebrados, no asfalto, ainda sob a chuva.

O próximo take seria meu novamente, ainda andando, ainda sorrindo, ainda cantando, se isso fosse um musical. Cada vez mais longe. Cada vez mais só. Cada vez mais feliz. Até a música parar e eu continuar andando. 

Os primeiros raios do sol surgiriam no horizonte. Algum pássaro cantaria e voaria de uma árvore. Eu continuaria. E, se isso fosse um musical, outra música começaria logo depois. Mas não é. Isso não é musical, não é um clichê meu. Não é, especialmente, porque não há, não há, quem represente a próxima canção. E haveria. Se isso fosse um musical.




sábado, 10 de janeiro de 2015

Teddy Bear



Me chame de Teddy Bear – não comporto um “ursinho pimpão”. É isso que tenho sido. Seu velho Teddy Bear, para abraçar quando a noite é de tempestade e todo mal ameaça vir. Quando o escuro é demais e o mundo se volta contra você, eu estou lá. Eu sempre estive.

Mas quando a noite é de festa, ou quando o mundo sorri e o sol brilha, não há lugar para mim em você. Daí meu lugar é o armário, fechado, escuro, escondido. Daí eu tenho cheiro de mofo, o pelo embolado e as costuras desfeitas. Daí eu sou infantil. Alguma coisa que ficou do passado e que é guardada para quando for útil de novo. Para quando alguém apagar a luz e a chuva se avolumar no horizonte.

Sim, porque então sou, de novo, seu Teddy Bear, fofo e com as velhas frases ensaiadas. Basta apertar-me e eu vou repetir. “Eu te amo!”. “Vou sempre estar com você!”. “Eu te amo!”. “Vou sempre estar com você!”. Isso até que as nuvens partam e as visitas cheguem. Então não sou mais que um incomodo, mais do que um brinquedo quebrado que, de vez em quando, de forma bem inconveniente, diz “eu te amo”, do armário, sem ter sido apertado. Um incômodo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Özpetek

Quando eu era pequeno, sempre ficava impressionado com o que as professoras sabiam. Especialmente as de português. Eram tantas regras e detalhes e exceções. Eu imaginava que jamais seria assim, que jamais saberia tudo aquilo. Esse ano, porém, em uma das minhas aulas, eu transitava sem dificuldade em classificar adjetivos, advérbios, substantivos, preposições e conjunções. Eu sabia também aquilo que elas sabiam. E era simples. Era simples. Eu me dei conta disso espantado.

No Ensino Médio, uma professora de Literatura me impressionava muito. Ela sabia todas as histórias, ela compreendia detalhes que nós, ávidos de tudo, deixávamos passar. E o Deus, assim como o Diabo, está no detalhe. Ela contava aquelas histórias todas e nos fascinava e eu ficava imaginando que técnica ela usava para saber, para lembrar, para não confundir. Hoje eu sei. Eu sei que não há técnica além da paixão. Não há outro registro senão o amor por aquilo que se lê, que se estuda, que se vê.

Sobre filmes o mesmo acontecia. Nunca diferenciei diretores e achava até pedante quando laureavam esse ou aquele como o preferido. Eu sempre acompanhei com certa distância a fascinação da Martha Medeiros por Woody Allen, por exemplo. 

Hoje me surpreendi com isso. Em uma lista sobre filmes com escritores, selecionei “O primeiro que disse”. Os cenários, a força dos personagens, as falas sublimes, tudo me colocou um sorriso no rosto e um nome na cabeça. Sim, de repente eu me vi pensando “Mas isso é  de Ferzan Özpetek!”.

Quando os créditos subiram, prestei atenção. E era. Lógico que era. Sem perceber, a gente vai atingindo patamares do que antes não sabíamos ser possível. Reconhecer uma classe gramatical, saber de cor os detalhes de um livro, reconhecer o estilo de um diretor. Tudo isso faz parte do nosso crescimento e do nosso aprendizado. Há ainda muito que me impressiona e que me faz pensar: “mas isso eu não saberei jamais”. Nomes de teóricos, por exemplo e suas citações literais.

De qualquer forma, essa tarde e esse filme foram importantes pelas lições. Especialmente por uma das personagens, a bala perdida entre elas. A delicadeza e o brilho no olho me fizeram perceber, outra vez, o porque eu escrevo. É por isso: delicadeza e brilho no olho. Eu quero, algum dia, chegar a emocionar tanto com uma obra quanto me emocionam os filmes de  Özpetek.

Eu quero saber desenhar as palavras exatas que mexam com a alma de alguém. É uma aprendizagem. Longa, ainda distante, mas é uma aprendizagem pela qual vale à pena se dedicar. Porque é assim que se tece a vida, aprimorando-se, chegando a pequenos impossíveis, atravessando barreiras e praticando tudo com um toque de naturalidade, de inconsciência até. Para que, algum dia, fazer aquilo seja simples. Escrever seja simples, emocionar seja simples. Encantar, enfim, seja tão simples quanto respirar ou reconhecer um filme de Ferzan Özpetek.



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ao que me deixa



Eu e ele nos encaramos com sorriso sacanas no rosto.

Terminou.

Fizemos o que podíamos, descobrimos o que queríamos e foi, no fim, muito mais do que imaginamos que seria. Não há agora o que se fazer. Há um abraço rápido e desajeitado, como são todos os meus abraços, e então ele segue sem olhar muito para trás.

É. Ele foi de arrasar. Ele terminou com minhas crenças e me deu uma ousadia antes impensada. Ele me fez viver ao som de Lana Del Rey. Sim, ele me deu asas, rodas e a noção da minha capacidade.

Claro, ele também me levou ao chão. E nem sempre por bem. Muitas vezes ele me deixou chorando sozinho, fez com que eu me arrependesse de tudo, obrigou-me a repensar cem vezes a vida inteira.

Por outro lado, ele me mostrou que algum poder eu tenho. Que eu posso transformar meus passos e, mais importante, transformar a mim mesmo. Ele mostrou que sempre há uma saída, sempre há uma solução, sempre há uma chance. Sim, isso é verdade, ele me deu buquês de chances.

Ele também me disse coisas felizes, espocando champanhe na sala de estar nova. Já no escuro, ele me sussurrou maus agouros, fechando minha boca para que eu não gritasse. Tudo foi necessário. Champanhe e escuro.

O melhor dele, porém, foi me fazer aceitar o pior de mim. Foi me fazer aceitar e amar meus defeitos, que nunca foram poucos. Acho que no fim o amor faz isso: aceitação.

Depois de tudo, só o que eu tenho a dizer a ele é isso. Eu te amei, 2014. Obrigado por cada um de seus dias!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

No escuro



Você nunca tem como saber. O que se passa dentro do outro. O outro é mistério. Mais do que o eu? Talvez mais. Você nunca vai saber o que uma frase, um olhar, uma, só uma noite, uma lâmina cega, uma ameaça vazia, você nunca sabe o que isso pode causar no outro. O outro é profundo sempre e não se mostra nunca.

Você não pode saber da música que ele canta por dentro, do livro que escreve em si todos os dias. Você não pode saber dos traumas que o corroem por dentro, feito ratos em edifício abandonado. Você não pode saber dos comprimidos que o outro esconde, parcimoniosamente, desde o dia em que decidiu tomar todos juntos. O outro é abismo. E abismo que não olha de volta, desvia o olhar, o esconde por trás de lentes espelhadas.

Você não sente o que o outro sente. E o mundo, meu Deus, é sentir. É sempre sentir, independente do que aconteça, independente do que diga a razão. O mundo é o que se faz por dentro. E o dentro do outro você não conhece. Você não pode ver. Você não pode entrar, por mais que bata.

Você não sabe da pulsação acelerada, da arritmia, da falta de ar. Você não sabe porque sangue, coração e pulmões ficam por dentro. Você não saberá nunca, a menos que o outro fale. E o outro não fala. É cofre com senha perdida. Ou há senha e você não a sabe. Há uma palavra, na verdade, que faria o outro se abrir. Mas ele não a diz. Não a dirá jamais.

Você não sabe a tortura que uma coisa simples, banal, pode ser para o outro. Ou você sabe porque também a experimenta com fobias inofensivas, mas você finge ignorar. Você finge, por puro egoísmo, que com os outros é sempre diferente. Você finge que ele não pediu ajuda já. Finge que ele não mencionou alguma vez, indiretamente, o que aconteceu, as janelas fechadas, o descontrole, a sensação de ódio maior do que a própria sensação. O outro é sempre indireto e isso como que autoriza você a o ser também.

Você nunca sabe o que é a arma apontada para a cabeça do outro. Mesmo a arma invisível e inútil, sim, porque o outro se mata antes, por dentro mesmo. Se intoxica com o que sente, fica a ver o mundo rodar, a bile amarga enchendo a boca, o coração explodindo no peito. Por nada. Por nada, você pode dizer. É, mas você não sabe que monstros há no nada alheio. E você nunca vai saber, não enquanto o outro deixar você do lado de fora, sozinha como uma criança perdida no escuro.