segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Surreal Red

Traço três começos. E quase me rasgo a carne pra ver se algum sangue sai. Nada. Inspiração nenhuma. Nem nos livros que mofam, nem nas coisas que passam, nem no dia que não sei se alegre ou não.

As folhas das janelas fechadas. As cobertas cantando, feito sereias, coisas de me fazer num sono afogar. Na cozinha, o bolo de limão se arrebenta por qualquer gulosa atenção, também não lhe dou a boca. Mexo nas coisas, pinto um poema ruim, boto ordem nas santas de espada em punho, cubro com máscaras a bruxa que não se quer ver. A coruja me pisca uns olhos espantados de contas marrons, não lhe dôo atenção.

O céu volta a ruflar tambores, os carros caminham lentos na descida da casa, algum cachorro se emociona e chora alto lá fora. O que tudo isso me diz? O que me dizem os fantasmas de papel recortado que coloco na cama pra me espantarem os sonhos ruins? O que me diz o lápis sem ponta lembrando que eu quebro minhas coisas e as deixo assim? O que me dizem todas essas red things?

Nada.

Porque são assim as coisas. As minhas coisas não falam sem serem solicitadas, servas de reis que são. E eu não as solicito porque são muito velhas e muito minhas as coisas.

Silêncio.

Fecho os olhos para sentir os trovões e nada faz muito sentido.
É... acho que não consigo me preencher do vazio que eu me crio.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Deixa

Deixo que o mundo faça seu barulho. Que o monstro cinza apite, que a chuva lave, que o homem erga o muro alheio. Deixo que as portas batam, que os carros corram, que as vozes falem.

Permissivo, deixo tudo. Que agosto chegue (e algum desgosto também...), que o desânimo venha e que os cães enlouqueçam com o vento que há. Deixo que as harpias vomitem, que os remédios se esqueçam, que a vida se esvaia, que os espelhos se cubram.

Deixo e dou corda no tempo – que é a deixa para eu esquecer. 
Deixo e vou cedo dormir – que é minha forma estranha de deixar ser.

Deixo tudo. Tudo. Tudo.



Diacho!
Só não me deixo viver.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

À minha primeira professora

— Vocês já contaram a ele sobre a professora?
— Contar o quê?
— Que ela é preta... É melhor contar. Algumas crianças quando chegam lá dão pra trás...
— Mas será que precisa mesmo?
— Eu acho melhor.

- - -

— E daí, Vinícius, faceiro com o começo das aulas?
— Aham.
— Você sabia que o nome da sua professora é Marli?
— Não...
— É sim... E tem mais uma coisa. A profe é pretinha.
— Tá.
— O teu pai teve uma profe assim também. Ela era a mais querida, sabia?
— Aham.

Eu não entendi o cuidado. Eu era criança e não entendia muita coisa. Achava então que não entender era meu modo normal de ser e assim ia inventando as coisas. Hoje entendo, embora ainda invente. Entendo que o preconceito não vinha das crianças de 4 anos, mas dos pais de algumas delas. Foi uma tia que pediu que minha mãe me “preparasse” e minha mãe, embora contrariada, o fez. Eu não via diferença de cor. Ainda não vejo.

Chegou o dia de começarem as aulas. E uma das minhas primeiras lembranças disso, depois da minha mochila colorida e do meu medo de entrar na sala, é da minha professora. Não lembro de ter reparado na cor da pele, mas de ver um sorriso de adoçar um mundo inteiro. Lembro de ganhar um abraço fofo, de dizer meu nome tímido, de entregar a ela minha escova de dentes com cabo de girafa.

Lembro dos trabalhinhos que fazíamos. Coisas para pintar, recortar, colar. Lembro dela sentando do nosso lado, perguntando o que tínhamos desenhado. Lembro de explicar aqueles riscos todos dizendo: “Aqui é minha casa que pegou fogo porque minha mãe esquece o lençol térmico ligado. E aqui é o caminhão dos bombeiros. Ah, essa é a Duda, minha cadela. E essa é a Xuxa. A da TV.”

Lembro dos bilhetinhos que ela colava na nossa agenda. Das estrelinhas coloridas que enfeitavam os cartões. Lembro dela pedindo, no Natal, que presente queríamos, para que ela os escrevesse ao Papai Noel.

Lembro do parque, o imenso parque de areais crocantes e balanços azuis. Lembro dos nossos jogos de descer de pé pelo escorregador, nossas guerras felizes com botões de camélias, nossas músicas de roda e canções de reis.

Lembro da profe Marli, sentada no murinho de pedra, colorindo com canetinhas de invejar desenhos que seriam colocados como capa dos nossos trabalhinhos do semestre. Sempre sorrindo, sempre feita de doçura e carinho. Sempre encantando a nós, os pequenos.

Tempo, tempo, tempo.

Eu já tinha então 16 anos. Estava na escola em uma tarde de bastante sol. Saí para o pátio, e no parque, no mesmo muro, estava sentada ela pintando com suas canetas de colorir. Eram outros pequenos, mas eu me vi também ali. Acolhido pela profe, sentido a segurança e o amor que ela tinha por nós. Ela não me viu. Se tivesse visto, teria me abraçado, como fazia sempre que nos encontrávamos. Não importava que idade eu tivesse.

Queria escrever mais. Queria dizer mais. Mas minhas letras borram em meus olhos d'água. E a voz embarga, engasga num sentimento de lembrar de quem um dia cuidou de me fazer feliz. E que agora não está mais aqui.

“Ó meu pai do céu, limpe tudo aí
Vai chegar a rainha
Precisando dormir...”



Ficção

É manhã. E cedo. Então, faz de conta que você não me conhece. Faz de conta que não precisa falar comigo, através da minha porta trancada. Faz de conta que você não é obrigada a me amar assim, com esse amor pesado, visguento e cheirando sempre à nicotina barata.

Faz de conta que não há nada no quarto fechado. Faz de conta que os barulhos que vem daqui são de alguma assombração que esqueceram trancada na casa. Faz de conta que não existo – porque não existo mesmo para mim.

Faz de conta que você não precisa de mim, que não me quer exibir na vitrine dos méritos teus. Faz de conta que não nos conhecemos, que nos cruzamos nessa casa como dois estranhos nas ruas de São Paulo.

Faz de conta que é tudo uma ficção, mal escrita. Uma história das minhas em que cada um carrega a própria dor. Sem reclamar, sem pedir, sem dar. Cada um enterrado dentro de si, como nas histórias minhas. Faz de conta, por favor.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O livro de Pandora

Passei o dia inteiro debruçado em uma Bíblia, de quase ateu que sou. Explico: preciso dela para analisar o livro alvo de minha dissertação. Assunto do trabalho à parte, noto que cada frase lida desperta em mim duas mil agulhadas. São assuntos infinitos, análises linguísticas, literárias, filosóficas, morais... Tudo me puxa e me prende e me preenche. Por vezes o pensamento corre desvairado, longe do meu foco – a criação – e se põe a analisar matizes insuspeitos.

O uso do plural por Deus, por exemplo: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” ou “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Que “nós” é esse, cara sagrada face pálida? Plural de modéstia?

Também me atraem as idas e vindas entre um capítulo e outro. A ordem da criação se altera, são diversos escritores, cada um com marcas linguísticas específicas, metáforas próprias, versões reunidas ora para favorecer uma coisa, ora outra... E tudo isso só no livro do Gênesis, no qual me deti.

E me perco mais. Se nessa criação estivesse escrito que Deus trabalhou um dia, descansou o outro e assim por diante, seria essa nossa constituição de semana? Tudo tão cheio de possibilidades e questões... Hipóteses e implicações... Que nossa. Preciso parar um pouco para me lembrar do meu objetivo, do meu foco, do meu tema, do meu nome até...

Senhor Deus, tem dias em que eu viajo demais. E a caixa de Pandora não é outra senão minha mente. Sem mais, voltemos (nós?) à dissertação.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Do Aquário

Chove. E por trás da janela, entre cortinas de renda, eu pareço um peixe monocromático a espiar na rua a cascata. A água que desce pelas pedras tem a cor vermelha do barro das estradas que sobem. Estas águas lavaram a terra da frente das casas, lavaram as pedras na beira das gramas, lavaram a alma de quem ia só.

E lavam as roupas de quem passa por aqui, sem qualquer guarda-chuva. Esse alguém que passa e me vê menino à janela, peixe dentro do aquário. O olhar não se detém, passa apressado, molhado, magoado pela água gelada.

E eu todo peixe olho, seco, confortável, apreciando o dia que escurece cedo, xícara de café nas mãos, poesias nascendo do peito, alívio de se estender na cama. Tudo bom e perfeito, como deve ser por dentro do aquário.

No mais, algas de plástico, pedrinhas coloridas e falso baú de tesouro.

Singelo pedido às bruxas do reino

Venho pedir com a humildade digna somente dos membros da corte de sangue anil, que vós, bruxas do reino, precisando em qualquer ocasião transformar-me em algum animal, evitem a escolha clássica: o sapo.

Eu nada tenho contra tão rugoso anfíbio, mas minha princesa tem vertigens terríveis ao ver qualquer um destes animais. Sendo, portanto, impossível que um beijo venha dela para desfazer qualquer encanto.

Ainda hoje a princesa quase foi atropela por uma carruagem enquanto atravessava a estrada, sombrinha em punho, correndo e gritando por ter visto um inofensivo sapinho.

Sem mais, agradeço finamente a compreensão e, além disso, caras bruxas do reino, caso precisem de uma sugestão de animal, indico uma rápida verificação na marca de minha mão esquerda.

Grato.